NUNO CATHARINO CARDOSO
Poetisas Portuguesas
ANTOLOGIA CON- TENDO DADOS BI- BLIOGRÁFICOS E BIOGRÁFICOS ACERCA DE CENTjÇ E SEIS PQÊTJ
LISBOA
LIVRARIA SCIENTIFICA
8í, Rua Nova do Almada, 8i
Poetisas Portuguesas
Composto e impresso na Imprensa ^ ^ de Manuel Lucas Torres ♦ •» R. Diário de Noticias, 5g a 6i, Lisboa
NUNO CATHARINO CARDOSO
Poetisas Portuguesas
ANTOLOGIA CON- TENDO DADOS BI- BLIOGRÁFICOS E BIOGRÁFICOS ACERCA DE CENTO E SEIS POETISAS
\
LISBOA
EDIÇÃO E PROPRIEDADE DO AUCTOR
1917
A propriedade literária Oeste livro é garantida ao auctor, em Portugal, pela lei Õe 18-3-1911 e no Brazil pela lei n." 2577 õe 17-1-1912
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Não é unicamente nas paginas da sua Historia Mi- litar, Marítima e Colonial, que Portugal se ufana de contar os nomes ilustres de exforçados guerreiros e de audaciosos navegadores, os quaes pelos seus bri- lhantes e imorredouros feitos, levaram Camões a íêr escrito :
E julgareis qual é mais excellente Se ser õo munòo rei, se õe tal gente
taes e tantos foram os prodígios de valor que Por- tuguezes operaram desde a fundação de Portucale até Chaimite, Marraquene, Coolela, Magul, etc. Se compulsarmos as paginas da nossa Historia Literária, deparamos, logo, com uma série de nomes de Se- nhoras que, pela sua inteligência e saber, se impõem ao mundo culto.
Completando esse quadro já de si soberbo, vemos que não é somente nas letras, mas ainda em quasi
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todos os ramos d'actividade intelectual, que se teem distinguido as Damas Portuguezas.
Assim, em tempos idos, floresceram : na pintura^ Josépha d'AYaIa, Soror Maria da Cruz, a duqueza D. Anna de Lorena, e Luiza Maria Rosa ; na cerâ- mica, Ignacia de Almeida ; na avchitéctura, Mar- garida de Noronha ; como teóloga, Izabel de Cas- tro ; como matemática, a Condessa de Serem e Al- buquerque ; como filosofas e humanistas : Marianna d'Abrantes, falecida contando apenas 17 anos e au- ctora de varias obras sobre Retórica Moderna e Fi- losofia Moral, Joana Michaela, Umbolina de Távora ; e, finalmente, como literatas : D. joanna da Gama, auclora dos Ditos de Freira ; Soror Brigida de Santo António (D. Leonor de Mendanha), D. Feliciana de Milão, D. joanna Ignez da Cruz, a decima musa, co- gnome que Lope da Vega também deu a Oliva de Nantes e que anteriormente havia sido posto a Ber- narda Ferreira de Lacerda, auctora da Espanha Li- bertada e das Saudades do Bussaco; D. Izabel Corrêa, D. Helena da Silva, Soror Maria de Mesquita Pimentel, auctora de Cantos religiosos, Soror Maria Baptista, auctora á'Obras ascéticas; Thereza Mar- garida da Silva e Horta, auctora de Máximas da virtude e formosura com que Diophanes, Cly-
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meno e Hemireno, príncipe de. Thebas venceram os mais apertados lances da desgraça; D. Maria do Céo e D. Maria Magdalena Eufemia da Gloria, para não falar noutras notabilidades femininas.
Que brilhante plêiade de nomes ilustres vem de eras remotas até nossos dias!
Que magica aureola envolve os nomes da Rainha Santa, convertendo ouro em fragrantes rosas ; os de D. Filipa de Vilhena e D. Marianna de Lancastre, ar- mando cavaleiros seus próprios filhos, bem como os da varonil Duqueza de Bragança, D. Júlia de Gus- mão, e da arrebatada e lendária Maria da Fonte!
Mãe de tantos Lusos insignes, a Mulher Portuguesa revive sempre pela grata lembrança de suas obras li- terárias e piedosas e por seus feitos militares e va- ronis.
Como, ainda hoje, séculos passados, é suave e em- polgante ler essas cartas de Soror Marianna, a Freira Portuguesa, cartas em que o amor, a ternura e o sofrimento em cada pagina se manifestam !
Como, ainda hoje, é grato pensar na Rainha D. Leonor, a fundadora d'hospitaes e de misericórdias, e que tantos beneficios espalhou no Paiz l
Como, ainda, volvidos tantos séculos, nos curvamos
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reverentes, ante os nomes da Condessa de Castelo Melhor, da Condessa de Penaguião, de D. Luiza de Faro, de Helena Peres, de Deusadeu Martins, da Pa- deira de Aljubarrota; de Antónia Rodrigues, pelejan- do em Mazagão, de D. Izabel de Castro, lactando no cerco de Alcácer contra o rei de Fez, de D. Izabel de Galvão, em Ceuta, de D. Maria Úrsula, em Am- boná, intrépidas guerreiras, companheiras de Izabel da Veiga, Anna Fernandes e Catharina de Sousa que na índia deram sobejas provas de audácia e de bra^- vura !
Como se no século XVI não bastassem os nomes de Camões, Bernardim Ribeiro, Cristovam Falcão, Sá de Miranda, António Ferreira, Diogo Bernardes, Gil Vicente, João de Barros, Damião de Góes, Fer- não Mendes Pinto e outros, para tornarem em ex- tremo gloriosas as paginas da Historia Literária da Pátria onde nasceram, como se o nome do Cantor dos Luziadas não fosse só por si penhor bastante para representar, belamente, uma literatura inteira, surgem, também, os nomes notáveis de Paula Vicente, filha de Gil Vicente e sua colaboradora; da Infanta D. Maria, filha de D. Manoel I e de sua terceira mu-
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Iher, Infanta tão letrada e conhecida pelo esplendor dos Serões da infanta, a que se refere Sá de Mi- randa, e que tanto brado deram ; de Publia Horten- cia de Castro ; de Leonor de Noronha, e de Joanna Vaz, a par das irmãs Luiza e Paula Sigea, conjuncto este de damas que, sem duvida alguma, teve impor- tante papel no resurgimento literário que nessa época se dá em Portugal.
Os conhecimentos que essas Senhoras possuíam, não se limitavam ao estreito âmbito que algumas pes- soas podem supor.
Conheciam bem — línguas, teologia, filosofia, e hu- manidades.
E' deste modo que, aos desasete anos de idade, Publia Hortencia de Castro, que não pertencia á fa- lange nobre dirigida pela Infanta D. Maria, tendo cursado filosofia, humanidades e teologia, defende teses em Évora, em 1563. A sua erudição era tal, que Filippe II — que assistiu a uma prova publica em que Publia Hortencia de Castro sustentou das mais dificeis teses teológicas — lhe concedeu uma pensão vitaHcia.
Não nos deverão, todavia, admirar em extremo es- tes factos, se atendermos a que Joanna Vaz, filha do licenciado ]oão Vaz e uma das três damas da In-
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fanta D. Maria, escrevia em árabe, hebraico, grego e latim, ao Papa Paulo III.
No século seguinte, apesar da decadência que já se nota na Literatura Portuguesa, ainda se destinguem, entre outras, Soror Violante do Ceu, auctora das Ri- mas [/árias e do Parnaso dos Divinos e Huma- nos versos; Soror Marianna, auctora dessas admi- ráveis cartas dirigidas ao cavaleiro de Chamilly; e a Condessa de Ericeira — D. Joanna de Menezes, — muito versada em castelhano, latim, italiano e francês e que escreveu quatorze volumes em que tratou as- suntos vários.
Desejando prestar a minha homenagem a tantas Senhoras Portuguesas que, de meados do século findo, até hoje, se teem notabilisado como Poetisas, (abro três justas excepções, tratando da Marqueza de Alorna, da Viscondessa de Balsemão e de D. Fran- cisca Possolo da Costa, que viveram num periodo anterior á data marcada para inicio deste trabalho), ou que simplesmente teem versejado com felicidade, e que tão nobremente teem sabido continuar as glorio- sas tradições literárias de suas antecessoras, resolvi consagrar ás Poetisas Portuguesas o primeiro volume
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desla Antologia, na qual, Portugueses, Brazileiros e Estrangeiros encontrarão inúmeras jóias dispersas do nosso vasto tesouro poético.
Da inteligência, saber e mérito de cada uma das Musas de que se ocupa este livro, mais do que eu possa dizer, falam as suas composições poéticas, nas quaes, a cada passo, encontramos sentimento, graça, lirismo e beleza que nos seduz e encanta.
Como poderiam deixar de ser notáveis as Senhoras que nasceram na Pátria que se honra de contar na numero de seus filhos insignes :
Garrett, Herculano, Castilho, João de Deus, An- íhero do Quental, Camillo Castello Branco, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Fialho d'Almeida, julio Dinis, Gonçalves Crespo, Thomaz Ribeiro, Bulhão Pato, Conde de Monsaraz, Fernando Caldeira, D. João da Camará, Sousa Monteiro, João de Lemos, Faustino Xavier de Novaes, Xavier Cordeiro, Soares de Passos, Gomes de Amorim, Palmeirim, Simões Dias, Alexandre da Conceição, Guilherme de Azevedo, Guilherme Braga, Abel Botelho, António Feijó, Luiz de Araújo, Rebello da Silva, Mendes Leal, Pinheiro Chagas, Latino Coelho, Oliveira Martins, Silva Pinto, Sousa Viterbo, Consiglieri Pedroso, Innocencio F. da Silva, Annibal Fernandes Thomaz, Rodrigues Sam-
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paio, Teixeira de Vasconcelos, António Ennes, Ma- rianno de Carvalho, Emygdio Navarro, Silveira Ma- lhão, Alves Mendes, Rodrigo da Fonseca Magalhães, José Estevão Coelho de Magalhães, Júlio César Ma- chado, D. Maria AmaHa Vaz de Carvalho, Theophilo Braga, Xavier da Cunha, Fernandes Costa, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Adolfo Coelho, Júlio Dan- tas, Eugénio de Castro, António Corrêa de Oliveira, Aííonso Lopes Vieira, Alberto Bramão, Augusto Gil, Júlio Brandão, Alfredo da Cunha, MarcelHno Mes- <}uita, Lopes de Mendonça. Alberto Pimentel, Carlos Malheiro Dias, João de Barros, etc, etc.
Antecedendo as produções de cada uma das poe- tisas que figuram no primeiro volume da Antologia Portuguesa, que deverá compor-se de 6 tomos e para a feitura da qual já consultei, sem um momento de desfalecimento, cerca de mil e cem obras poéticas — ha uns ligeiros dados biográficos e bibliográficos que, propositadamente, escrevi numa linguagem sim- ples, desapaixonada e sem hipérboles, dados que ser- vem para apresentar cada uma das Senhoras a quem me refiro.
Muitas das poetisas de que trato, por demasiada- mente conhecidos seus nomes e apreciadas suas obras literárias, não careciam de apresentação, se desse mo-
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do não desejasse reunir muitos elementos dispersos, duma matéria que entre nós tem sido pouco versada (Vide pag. 165 deste trabalho), e tornar mais útil e mais interessante esta obra que, pelas notas biográfi- cas e bibliográficas que insiro, fornece os elementos necessários para se poder proceder a um balanço do movimento intelectual feminino em Portugal, a partir de meiados do século XIX, até nossos dias, designio que, embora não completamente, penso ter realisado.
Ao organisar os seis volumes que constituem esta Antologia que, pela sua orientação e conjuncto, con- sidero uma das mais completas de quantas tentativas e realisações similares se íeem efectuado em Portugal e no Estrangeiro, não tive só em mira prestar a mi- nha calorosa e respeitosa homenagem ás Damas Por- tuguesas e aos Poetas Portugueses como também dotar o meu Paiz com uma obra que ele ainda não possuía, não obstante tão grande lacuna ser ha muito notada.
Apezar de todas as meticulosas investigações e do cuidado que puz em não omitir o nome de qualquer poetisa que, de todo em todo, fosse injustiça deixar de citar, certamente uma ou outra omissão haverá.
A's Senhoras que tendo merecimento e direito a figurarem na minha obra, nela não virem o seu nome,
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peço me relevem essa falta, que só o desconheci- mento de suas produçí3es poéticas ou a dificuldade em obter dados biográficos me levou a cometer.
Se não fosse um tanto ou quanto rebelde a clas- sificações e se uma vez estas estabecidas, não trou- xessem melindres (razão porque resolvi, para os evi- tar, seguir neste livro a ordem alfabética), dividiria as poetisas a que me refiro, em : Poetisas falecidas e Poetisas vivas.
Estas ultimas, subdividi-las-ia em dois grupos.
Como esta Antologia, pela sua própria natureza, não é um livro de critica literária, embora algumas das poetisas citadas tenham, é certo, mais mereci- mento que outras, abstenho-me de taes classificações que deixo ao critério e preferencia do leitor.
Concluindo estas explicações, resta-me apresentar a todas as Senhoras e Pessoas a quem tive a honra de entrevistar e a todas as Damas e Cavalheiros que tiveram a amabilidade de me prestarem esclareci- mentos, a expressão mais sincera do meu grande e profundo reconhecimento pela forma captivante com que umas e outros se dignaram anuir aos meus pe- didos.
A's Ex."^' Senhoras D. Mecia Mousinho de Albu- querque, D. Zulmira Franco d'Almeida Teixeira, D.
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Maria Jacintha Teixeira Bastos, Q. Esther Amália da Cunha Delem, D. Maria Figueiredo Feio Rebello Castello Branco, D. Lia de Magalhães CoUaço, D. Branca da Silveira e Silva, D. Alda Guerreiro Ma- chado, D. Emilia Adelaide Moniz da Maia, D. Maria 0'Neill, D. Rosalinda Celeste de Figueiredo Santos, e D. Rosa Varela que quizeram enriquecer esta An- tologia, cedendo-me valiosos inéditos, aqui deixo ex- presso o preito da minha maior gratidão.
Lisboa, Junho õe 1917.
Nuno Cathãrino Cardoso.
POETISAS PORTUGUESAS
ANTOLOGIA
D. MARIA ANNA ACHIOLI
D. Maria Anna Achíoli nasceu em Torres Veõras. E' filha ôe D. Lia ôe Magalhães Collaço, ôa Casa ôe Conôeixa e òo òr. Fonseca Achioli, ôescenôente õe uma família nobre e ilustre õe Florença.
E', portanto, D. Maria Anna Achioli bisneta õos conòes Òe Condeixa e sobrinha õos conões ô'Aviléz.
D. Maria Anna Achioli, apezar õe muito nova, tem já a sua viõa esmaltaõa por titulos õe valor literário e artístico.
Obteve 20 valores no seu exame õo quinto ano õe portu- guez, no liceu. E na pintura foi õiscipula õilecta e notável õe Maõame Zoé Wautelet Batalha Reis.
As suas poesias são tão singelamente naturaes, tão im- pregnaõas õe canõura, tão filhas õe um granõe coração, que bem se encarregam essas obras õe iniciarem o alvorecer Õe uma vocação poética õe primeira orõem.
CHAPINHANDO
Ao Õe leve, na viõraça bate a chuva miuõinha e ella, a Maria õa Graça finge que a saia arregaça e ri com gosto, a tontinha !
Poetisas Portuguesas
A cabeça òescoberta
e a chuva tão miuõinha . . .
E ella a rir. Iravessa e esperta,
pára na rua, õeserta,
e os pés na lama chapinha.
O cabello a òesfrizar-se com a chuva miuõinha. . . e ella, rinôo, a arregaçar-se, como quem sêòas trajasse em vez Õe curta sainha.
Ris, pequena enòiabraôa ? E a chuva cae miuõinha . • mas olha a saia encarnaôa que ôe tanto arregaçaòa, se não vê, a pobresinha !
Que gosto é esse, Maria ? Cai a chuva miuòinha. . . foge, corre, que ella é fria e eu sei que alguém choraria ao saber-te doentinha.
Maria Anna Achioli. Almanach de Lembranças^ 1913, pag. 150.
LAR FELIZ
Olha o sol já se escon&eu, Não tenho tempo a perôer. Vem o Manei, quer comer. Toôo o õia a trabalhar, E' tempo Òe õescançar !• . - Tão branco e tão pequenino, Como ôorme o meu menino O filho que Deus me ôeu !
Poetisas Portuguesas
Na mesa nova õe pinho Manchanõo a alvura 5o linho Luz o veròe cangirão, Dois talheres, copos e pão.
Ah ! mulher, temos bom anno, Não ha fome cá n'alõeia, A espiga é granôe e cheia, Cahiu a agua ôos Céus E inchoua, benza-a Deus! E a gente sempre a pensar Que a chuva a vinha estragar, E ás terras causar õamno. . . *
A comiòa é bem frugal Batatas, couves com sal ; Mas na terrina alõeã Cheira a sopa a hortelã.
— Está boa a ceia, Maria ; Ah ! . Olha lá, meu amor, Faz hoje um ânno, pois não ? Que o bom õo senhor prior Me Õeu para a minha mão
A cachopa mais bonita, A moçoila mais catita Que eu vi lá na romaria. —
E os copos enchem-se então
— <A' nossa e á ôo petiz>, — Fructo õ'aquella affeição, Enlevo òo lar feliz !
Maria Anna Achioli.
4 Poetisas Portuguesas
D. VIRGÍNIA DA C SILVA AGOAS
Faleceu contanôo apenas 27 anos òe iôaõe, Era filha 5o empregado Ôo Ministério òa Fazenòa — Agoas.
O seu volume òe versos, Ouír'ora, prefaciado pelo Dr. Canõiòo õe Figueiredo, foi comprado por mim em plena rua, onde se vendia por preço ridículo, como sucede a tan- tas outras obras. O facto apontado é a prova evidente do pouco interesse que uma bôa parte dos Portuguezes tem por assumptos literários.
E' com satisfação, que presto homenagem á sua auctora, que em vida, tão assidua e distinctamente colaborou no in- teressante jornaí Os Echos da Avenida que já conta bastan- tes anos de existência e no qual se encontram as biogra- fias e retratos de pessoas mais em evidencia no nosso meio literário. D. Virgínia Agoas colaborou também nos jornaes A Tarde, Folha do Sul, de Montemór-o-Novo, etc. Num certapien literário iniciado pelos Echos da Avenida, em 1906, uma das suas quadras foi das mais votadas.
Esta Poetisa tinha grande vocação para a pintura e para a musica.
Escreveu ainda, um livro de contos. Silvas, prefaciado por Carlos Malheiro Dias e que á semelhança do que aconte- ceu com o seu volume de versos, foi publicado postuma- mente.
SAUDADE
Saudade tem-se de uma rosa linda
que a gente vê desfolhar tristonha,
Saudade tem-se, quanto mais se sonha. . .
De um bem que morre. . de um prazer que finda.
Saudade, causa tanta vez, ainda, a própria Dôr — a sensação medonha. Mas essa é, a que provem risonha, do recordar de uma ilusão infinda.
Poetisas Portuguesas
Sauõaôe — encanto e lagrimas — existe
ôe um sonho bom õe um sonho belo ou triste,
e tuôo envolve em sua roxa côr.
Sauôaòe ! — ai é sentir toòo um passaõo nitiòamente e sempre reavivaõo, — é òerraòeira pagina õo Amor.
Virgínia Agoas. Outrora, versos póstumos. Porto, 1913, pag. 11 e 12.
IMACULADA
Um primor ôe arte antiga e requintada essa meôalha Òe subtis lavores, que eu encontrei um õia abanõonaõa no banco ôe um jaròim, por entre flores.
Na tampa õe oiro, oval e cinzelada, exibia uns iôilios ôe pastores, abraçanôo-se á luz ôa maôrugaôa, nos mais simples e canôiôos amores.
Encontrei-a, — e uma intensa vontaôe levou-me a abril-a, cheia ôe ancieôaôe, essa meôalha antiga e cinzelaôa. •
Vi então, mais formosa ôo que Ester um retrato ôe ôeusa, ou ôe mulher, e uma palavra só : — Imaculada !
Virgínia Agoas. Outr'ora, pag. 15 e 16.
Poetisas Portuguesas
DORMIR -ESPERAR .
Dormir, ôormir — esquecer Coisa boa, que inõa existe ! Dormir é quasi morrer, Allivio Õe quem é triste.
O tormento mais amargo, o mais luminoso amor, tuõo cae n'esse letargo, sempre pacificaôôr !
Dormir ! — A paz para a alma !
— Tréguas para qualquer ôôr !
— Descanso para o sentir !
— Vaga, que instantes acalma ! Morte efémera õo Amor Esquecer . . Dormir, Ôormir !
Virgínia Agoas. Outr^ora, pag. 41 e 42.
No calvário espinhoso ô'esta viôa, vou caminhanõo em busca ôe uma luz que me será ôepois, na õespeòiõa, õerraôeiro clarão, õeposta a cruz.
Virgínia Agoas. Outr'ora, pag. 83.
Poetisas Portuguesas
D. MARIA CECÍLIA AILLAUD
D. Maria Cecília Aillauõ nasceu em Coimbra, senôo filha òe João Peõro Aillauõ, negociante vinõo õe França e que se estabeleceu naquela ciôaôe.
Em 1808 casou-se com o õr. Manuel Mathias Vieira e Fia- lho õe Menôonça, latinista notável e poeta, e Òe quem en- viuvou em 1833.
D. Maria Cecília Aillauõ, eõucaôa no Colégio Õas Urseii- nas, foi uma pianista muito notável. Teve por professor o estuõante Õe matemática ]oão Evangelista Torrianí, a quem D. Frei Francisco õe S. Luiz veiu a chamar insigne tocador de piano em que mostrava particular gosto e expressão.
D. Maria Cecília Aillauõ foi bastante infeliz.
Após a morte õe seu mariõo, faleceu-lhe uma filhinha. Em 1834, õeixava õe existir seu filho, aluno õístíncto, e pre- miaõo em toõos os anos õa Universiõaôe e a quem õeõi- cava particular estima.
Nos escriptos õe D. Maria Cecilía Aillauõ preõomina sempre granõe sauõaõe pelo filho e granõe amor e respeito pela religião.
D. Maria Cecília Aillauõ õeixou muitos escritos originaes e traõuziu bastantes trechos Õe auctores eclesiásticos e pro- fanos, como : Bossuet, Massillon, etc, La Harpe^ Buffon, Saint Lambert^ Voltaire, Rousseau, Corneille, Racine, Mo- lière, Chateaubriand, Victor Hugo, Metestasio, etc.
Foi também auctora Õe meõitações, pensamentos, e õe varias poesias.
A sua obra principal são as suas óMemorias.
Estes apontamentos foram extractaõos, em parte, õa obra A Mulher em Portugal Õe D. António õa Costa. Nas Cartas Selectas õe Fonseca Pinto vem também um interessante ca- pitulo sobre esta Senhora que faleceu em 1857.
As poesias que apresento õ'esta Poetisa, õevo-as á ama- biliõaõe õe Carlos Augusto õe Almeiõa. Foram traõuziõas
Poetisas Portuguesas
pelo òr. Castro Freire que foi lente òe matemática e antigo Vice- Reitor õa UniversiõaÔe ôe Coimbra.
A' MEMORIA DE MEU CARO FILHO MANUEL MATIAS VIEIRA
Tu que brilhar fizeste Em minha noute escura Doce raio õe amor e luz celeste ; Tu que na terra teu amor me oeste ^■' Ah ! òe mim não te esqueças lá no céu.
Maria Cecília Aillauô.
De colina em colina vagueando
Do sul ao aquilão, Meus olhos Òesôe a aurora ao occiôente
Tuòo correnõo vão. Eu òigo : minha vista em vão procuro Em sitio algum depara com a ventura !
Estes valles, as rochas, os palácios
E as chossas õe pastor Para mim vãos objectos sem encanto
Não tem algum valor. Sem um ser que vos falta, amenos praòos, Rios, bosques, sois ermos, escalvados.
Quer o giro ôo sol vá ter principio
Quer esteja a findar Eu, insensível sempre ; pelos ares
O vejo caminhar : Quer sumido entre nuvens, quer radioso Que importa o sol e o dia ao desditoso ?
Poetisas Portuguesas
Ainõa que em seu giro eu o seguisse Dos céus pela extensão,
Meus olhos sequiosos só reviam O vácuo, a solidão :
De quanto cobre o sol naõa apeteço Ao munòo inteiro cousa alguma peço.
Que importa no momento ôo naufrágio Se em pomposo baixel se ha navegaôo, Ou se n'um batel ligeiro Solitário e passageiro, Se tem somente a praia borõejaôo ? ! Maria Cecília Aillauò.
D. ANNA DE ALBUQUERQUE
D. Anna õe Albuquerque foi actriz õo teatro òe D. Ma- ria II, hoje Teatro Nacional, onõe fez a sua estreia, não fa- zenôo má figura, segundo assevera Sousa Bastos, no seu livro Carteira do Artisía, que ácêrca òesta Senhora pouco mais aõeanta.
D. Anna õe Albuquerque abandonou a carreira teatral, para se casar com o general e par ôo reino D. Luiz da Ca- mará Leme.
A poesia que apresento foi publicada na Tragedia, n." único de um jornal publicado pela sociedade dos artistas dramáticos do Teatro de D. Maria, destinado a socorrer as victimas dos terremotos em Hespanha, jornal no qual cola- boraram, entre outros, António Pedro, Augusto Rosa, Rosa Damasceno, Carolina Falco, Joaquim de Almeida, Thomaz Ribeiro, Eduardo Coelho, Fernando Caldeira, etc.
D. Anna de Albuquerque colaborou no Almanach dos Pal- cos e Salas, de 1899 e foi directora, segundo me informam, do Almanach D. Luiz.
10 Poetisas Portuguesas
Sae-nos òo coração um pranto aròente um mysterio, um perfume, um branôo som, como passa no ar o aroma quente õas aras virginaes ò'um anjo bom.
E o nosso amor, os nossos ais maguaòos, õa nossa õôr as expansões tão francas, irão cair aos pés õos Òesgraçaõos como um Õiluvio òe violetas brancas.
Anna ôe Albuquerque. Tragedia, 1885, pag. 6.
D. MAFALDA MOUSINHO DE ALBUQUERQUE
D. Mafalõa Mousinho òe Albuquerque que nasceu em Lisboa, é como sua irmã D, Mecia Mousinho Ôe Albuquer- que, ôe ilustre ascenõencia, não ôevenôo nós Portugueses esquecer que á mesma ilustre familia, cuja nobreza vem ôo tempo ôe D. Diniz e que tem ôaôo a Portugal tantos guer- reiros e literatos, pertence Joaquim Mousinho ôe Albuquer- que, o heroe ôe Chaimite.
Seu avô Luiz Mousinho ôe Albuqnerque, poeta ôe nome e homem ôe Estaôo notável, foi uma ôas figuras ôe ôesta- que na Revolução Patuleia, pela qual morreu na batalha ôe Torres Veôras.
Seu pae FernanÔo Mousinho ôe Albuquerque, alem Ôe ser um liberal, foi também um bravo. Foi um ôos mais in- trepiôos caôetes que a ôivisão auxiliar que foi á Hespanha, levou para combater o exercito Carlista. No combate ôe Chão da Feira, foi feriôo ; e á frente ôo Batalhão Acadé- mico, caiu varaôo ôo peito ás costas, no violento combate ôo Alto do Viso.
Apesar ôe D. Mafalôa ter tantos motivos para justificaõo
Poetisas Portuguesas 11
orgulho, escolheu e firmou quasi toòos os seus trabalhos literários com o ôespretencioso pseudónimo ôe Modtsta.
Foi nos últimos tempos õo granõe poeta Thomaz Ribeiro, que apareceram os primeiros versos òe D. Mafalòa Mou- sinho e que tantos encómios mereceram ao falecido auctor ôo D. Jaime, que tornou conheciõa Ôo publico D. Mafalda, que nessa época pouco mais era que uma criança.
Não se enganou, pois, Thomaz Ribeiro, quando profetisou que D. Mafalda Mousinho de Albuquerque seria uma boa poetisa, o que esta Senhora plenamente justificou com a publicação das Nevadas Penas, aparecidas sob o pseudó- nimo de Rubem de Lara, livro tSo querido de sua auctora, bem como o romance Um Rembrandu obras estas em que Rubem de Lara e Modesta atingiu a maior perfeição nos seus versos e na sua prosa elegante.
Em- 1906 publicon o seu primeiro livro : Contos, prefaciado por D. João da Camará.
Em 1907, Versos, prefaciado pelo dr. Cândido de Figuei- redo.
Em 1908, O Coração dum Sábio, em que defende como remédio social o divórcio.
Em 1910, Um Rembrandt e finalmente em 1913, Nevadas 'Penas, obras estas que abordam assumptos tão diferentes, mas que nunca ferem a nota politica a que D. Mafalda é completamente extranha.
Do valor literário dos trabalhos de D. Mafalda Mousinho de Albuquerque falam nos mais elogiosos termos, as chro- nicas literárias de vários jornaes, firmadas por António de Campos Júnior, Cândido de Figueiredo, o falecido dr. Adolfo Sarmento, etc.
SOMBRA
Nem eu própria sei bem porque sou triste,
Porque esta imensa dôr Me annuvia, e me mostra quanto existe
Sombrio, aterrador !
12 Poetisas Portuguesas
Bem sei que para toòos ha espinhos
Nas rosas õo viver ! Que toòos têm nos ariõos caminhos
Da viõa, que soffrer !
Que nem tuõo é sinistro e negro e feio
Em ôerreòor Õe mim ! Mas não sei que tristeza, que receio
Gela meu peito assim !
Quando em pequena ainòa, me acolhia
Ao regaço òa mãe, Dizem que poiícas vezes me sorria ;
E eu lembro-me também !
Hoje, em mulher, as sombras carregaram !
E, não sei bem porquê, Inõa as minhas tendências não muõaram :
Ninguém sorrir me vê !
MoÒesta. (Mafalòa Mousinho Õe Albuquerque). Versos, Lisboa, 1907, pag. 29 a 30.
SEM REMÉDIO
Alta noute. Na alcova, a lamparina Lança uma luz serena, incerta e baça. Pela memoria a òesòitosa passa Os caprichos õa sua infausta sina.
E emquanto triste e languiõa õeslaça As roupas õe cambraia e musselina, Sobre o peito õe novo a fronte inclina, Como a estatua õa õôr ou õa õesgraça
Poetisas Portuguesas 13
No braço, envolto em renôas perfumaòas, Duas manchas enormes, azulaòas. Que enfureciõo alli deixara alguém,
Trouxeram-lhe a sauôaôe òentro õ'alma, Da viõa pobre, mas suave e calma. Que ella gosára ao pé õe sua mãe !
Moòesta. (Mafalôa Mousinho ôe Albuquerque). Versos, pag. 87 e 88.
POR QUE TE AMO
Amo- te, porque és tu a luz bemôita Que as trevas õesta viõa me alumia ! Porque és tu minha única alegria ! Doce conforto õa minha alma afflicta !
Pharol abençoado que me guia Neste mar ò'amargura e õe õesôita, Onõe o meu coração se estorce e agita Numa longa, uma intérmina agonia ! . . .
Amo-te, porque neste ignaro munôo O meu longo Descrer Õoiõo e profunõo. Não m'o expulsa ôo peito mais ninguém !
Porque ninguém no munõo se compara Comtigo, alma õe luz formosa e rara ! Sublime encarnação õe toõo o bem.
Moõesta. (Mafalõa Mousinho õe Albuquerque). Versos, pag. 148.
14 Poetisas Portuguesas
/EQUO ANIMO!
Vós o sabeis, senhora ! — Com certeza, O sabeis quasi como eu próprio sei ! — Que para mim não ha mais oura lei Que esta ôa vossa glacial frieza !
Mas como a gente a tuôo se habitua, E' para mim um facto, assente agora, Que hei-õe seguir por toòa a viõa fora, Observanõo uma lei severa e crua !
E' vosso nome o raõioso grito Que aos meus lábios acoòe sem cessar ! Se òesviaes òe mim o vosso olhar. Não podereis também vêr um ôelicto.
Neste preito õe amor tão levantaòo. Que se póõe chamar-lhe aôoração ! Senhora, que me õaes a inspiração ! Senhora, que sois toõo o meu cuiõaôo !
O amor nunca se mendiga E' ou não é .. e acabou! Deus esta lei decretou Porque toõa a gente a siga !
Vêòes portanto ! Não peço Nem por sombras o impossível ! De um peito nobre e sensivel Reclamo o que lhe mereço !
Um boccaòinho òe estima Com tuôo se concilia Só a vossa sympathia Toòo o meu ser reanima. . .
Poetisas Portuguesas 15
Descei a mim vosso olhar
— Como não ha outro igual — E vereis toòo o meu mal
Por encanto se acalmar !
Olhar, que traga somente Um bocadinho pequeno D'aquelle affecto sereno Onòe abrigaes tanta gente 1
Sou como a ave sem ninho ! Senhora, õae-me o abrigo Do vosso olhar, que eu prosigo No meu agreste caminho !
E Òepois . quanòo cansaòo Do frio intenso õo inverno, Erguerei meu braòo eterno. Em qualquer rocha sentado :
— Senhora õos negros olhos E õas palavras serenas ! Vêõe estas «Nevadas Penas>
Do meu caminho òa abrolhos! . . .
Ruben ôe Lara. Nevadas Penas, Lisboa, 1913, pag. 3 a 6.
PRECE
Senhor ! ]á que a tormenta se não cansa
De contra mim rugir, Doixae-me, inòa que ténue, uma esperança ! Deixae-mé, como um iris òe bonança Vêr o seu ôoce e placiôo sorrir !
16 Poetisas Portuguesas
Dai-me, Senhor, emfim, toõa a amargura !
— Noite sem alvoraòa ! — Irei buscar phantastica ventura Na aòoração, na ferviòa ternura Que me escraviza aos pés Ôa minha amaõa !
E a minha sorte negra hei 5e soffrel-a,
Senhor, sem me queixar. Se attenòerões, Meu Deus, o que vos peço ! Que no caminho ouro que atravesso Nunca me falte a luz òaquelle olhar !
Ruben ôe Lara. Nevadas Penas, 1913, pag. 45 e 46.
UM ENCONTRO
Passava òistrahiôo . . e tu bem viste Que o pensamento meu não era ali, Quanôo o teu rosto emfim reconheci No olhar com que insistente me meôiste !
Ha longos annos já que te esqueci. — Ao tempo, bem vês tu, naõa resiste ! — . . .Se o meu olhar foi summamente triste Certamente não foi porque te vi !
Que importa lá que os annos òecorressem E que os factos emfim te convencessem Que era simples e bom meu coração ?
E' tarõe ! Muito tarõe ! — Que loucura Vir agora a acorõar uma amargura, Hoje, fora Õe tempo- . . e õe razão. • .
Ruben òe Lara. Nevadas Penas, Lisboa, 1913, pag. 49e 50.
Poetisas Portuguesas 17
D. MECIA MOUSINHO DE ALBUQUERQUE
D. Meda Alousinho Õe Albuquerque é filha ôe D. Mafalôa Augusta Barbosa õe Miranòa e õe Fernanõo Luiz Mousinho ôe Albuquerque que foi o comanõante õo 'Batalhão Aca- démico no Alto do Viso e neta õe Luiz õa Silva Mousinho õe Albuquerque, auctor õe Ruy^ o Escudeiro e Õas Georgicas, õois livros bastante conheciõos e apreciaõos.
D. Mecia Mousinho õe Albuquerque que é uma õistincta poetisa, tem colaboraõo, em prosa e verso, nos jornaes Oc- cidente, Novidades, Tarde, Nacioual, Dia e Nação.
Alguns õos escriptos õesla ilustre senhora que Õescenõe õe Affonso Sanches, filho bastarõo õe D. Diniz, teem siõo firmaõas com o pseuõonnimo õe Zoleica.
D. Mecia é auctora õos seguintes trabalhos : Tecedeira, poemeto õestinaõo a uma obra õe cariõaõe e que renõeu mais õe 1 conto õe réis ; .4 Bandeira ; Os Mortos de Cha- ves, folheto.
Tem para publicar os seguintes trabalhos literários :
Verso: ^lusa das prisões ; Versos e Farpinhas, õe cola- boração com sua filha D. Fernanõa Mousinho õe Albuquer- que.
Prosa : Aventuras de Rudeguna.
D. Mecia Mousinho é, juntamente com a Senhora Conões - sa õe Ficalho e D. Constança Telles õa Gama, õas Senhoras Portuguezas a quem os presos políticos e emigraõos mais altos serviços Õevem. E' funõaõora õe uma Associação que tem por fim conceõer subsiõios e pagar renõas õe casas, a monarchicos necessitaõos.
No Álbum dos Vencidos, ha um capitulo õeõicaõo a esta Senhora, no qual se faz referencia aos serviços que aos mo- narchicos tem prestaõo.
Rocha Martins, auctor õo D. Manuel 21, trabalho que a par õos õe ]oaquim Leitão, muita luz lançam nos aconteci- mentos que õeram origem ao 5 de outubro de igio e nos que se lhe seguiram, no seu romance histórico Maria da
2
18 Poetisas Portuguesas
Fonte fornece valiosos elementos para o estuõc 5a família Mousinho que conta tantos guerreiros e literatos ilustres.
A biografia ôo avô ôe D. Mecia, foi feita por Xavier Cor- òeiro.
O ultimo trabalho literário òe D. Mecia Mousinho òe Al- buquerque, ha pouco publicaõo, intitula-seFr.r^wie«ío5//í5- loricos, elegante eòição, em que ha belas poesias, cheias ôe Fé, e que encantam pela forma primorosa por que estão escriptas, como os leitores poõerão apreciar no soneto òe- òicaôo á memoria ôe Aivaro- l^inheiro Chagas.
DEPOIS DO BAILE
INKDITA
Terminou o baile . agora. Dos seus triumphos ufana. Uma formosa munòana Expõe-se ás luzes Ô'aurora
A belleza soberana. Que o munõo incensa e aõora — E onõe o tempo, por ora. Não pôz a mão ôeshumana,
Desprenõe o negro cabello.
Ao espelho — e fica-se a vel-os • .
De repente perõe a côr !
E' porque na ôensa matta, - Um branco fio be prata Apparece. . ■ ameaçador !
Mecia Mousinho òe Albuquerque.
Poetisas Portuguesas 19
OCULTAS MAGOAS
Como sombra que passa fugitiva, Olhos fitos nas peõras òa calçaòa — Lá vae Ella — a Conòessa pensativa Em seu scismar infinõo mergulhaòa !. . .
Os tranzeunles param só por vê-la; E caõa um, ao contemplá-la, õiz : «Isto não é mulher . . é uma estrelia!» «Um ente assim, como ha Õe ser feliz !>
Ao banquete òe finas iguarias
Onõe as flores se espalham nos crystaes,
Occultanôo profundas agonias,
A Conòessa engole amargos ais !
Mas os convivas forçam-lhe o sorriso, E caòa um, ao contempla-la, òiz : «Não ha mais bella flor no paraíso !> «Um ente assim. . • como ha õe ser feliz !>
Vibra òo baile no ar o mago encanto, Resplandece a alegria nos semblantes : Só a Conòessa a custo gela o pranto Que borbulha em seus olhos rutilantes !
As òonzellas cobiçam-íhe a frescura, E caòa uma, ao contempla-la õiz : «Tão rica e formosa . . que ventura !> «Um ente assim . . . como ha òe ser feliz !>
Mas sobre fria e solitária lousa
Altar funéreo ò'um amor aròente
A altas horas a Conòessa ousa
Gemer. . . carpir. . . chorar eternamente !
20 Poetisas Portuguesas
E alevantanòo o seu olhar discreto, Triste -O coveiro, ao contempla-la õiz <Só eu conheço o teu pezar secreto, Misera amante • e chamam-te feliz !>
Mecia Mousinho 5e Albuquerque.
A* MEMORIA DE FREDERICO PINHEIRO CHAGAS [No 2,° anniversano da sua morte)
Em nome Õas senhoras Portuguezas, Que ôas gloriosas épicas acções, Das façanhas antigas, ôas proezas, Guaròam n'alma as sagraòas traòicções.
Uma simples coroa ôe tristezas Venho trazer, co'as nossas orações, A esse moço, que a perfiòas grandezas. Preferiu o sepulchro sem traições !
Fiel até á morte, a sua espaõa.
Reluzente, leal, immaculaòa.
Não se dobrou òe vencedor á lei —
Inerte . . embora ! ainda prestigiosa, Ensina assim á Pátria revoltosa. Como se guarda a fé jurada ao Rei !
Mecia Mousinho de Albuquerque. Fragmentos Históricos, Lisboa, 1917, pag. 23 e 24.
Poetisas Portuguesas 21
MARQUEZA DE ALORNA
D. Leonor õe AlmeiÒa Portugal Lencastre e Lorena, 4." Marqueza ôe Alorna e Condessa òe Oeyenhausen, nasceu em Lisboa a 31 òe Outubro òe 1750.
A Marqueza òe Alorna era filha ôe D. Leonor òe Lorena, filha òos Marquezes òe Távora e òe D. ]oão òe AlmeiÒa Portugal, 2.0 Marquez òe Alorna.
Os antepassaòos Òe D. Leonor òe AlmeiÒa Portugal Len- castre e Lorena, são òos mais ilustres. Aos Almeidas refe- re-se Camões, no canto I, estancia 4.».
O titulo òe Alorna, Praça òa InÒia Oriental, foi conceòiòo por D. João V. em 9-11-1748, a D. Peòro òe AlmeiÒa Por- tugal, 3." Conòe òe Assumar e 1." Marquez òe Castello Novo, Vice rei òo EstaÒo òa Inòia, cargo que também exerceu seu avô D. Francisco òe AlmeiÒa.
O Apeliòo AlmeiÒa, segunòo refere Frei Dernaròo òe Brito, no L.° 5." Capitulo 6.° da i.^ parte da Chronica de Cister, Òata òe D. Sancho I, em que Paio Guterres tomou o Castelo òe Almeiòa aos Mouros.
Paio Guterres é neto òe Pelaio Amaòo, cavaleiro princi- pal na Corte òo Conòe D. Henrique.
Além Oestes, muitos outros ascenòentes notáveis teve a a Marqueza òe Alorna.
Na noite òe 3 òe Setembro òe 1758, Òá-se o atentaòo contra D. José,
Seu Ministro, o Marquez òe Pombal, que, por causas va- rias e factos anteriormente passaòos, oòiava a fiõalguia, aproveita tal ensejo, para manòar prenòer o Marquez òe Gouveia, o Duque Òe Aveiro e o Marquez òe Távora — D. João òe AlmeiÒa, ~ 2." Conòe òe Alorna.
Sua esposa, D. Leonor òe Lorena, e suas Òuas filhas D. Maria õe Almeiòa e D. Leonor òe Almeiòa, foram enclau- suraòas, no Mosteiro òe San Félix, em Chellas, onòe per- maneceram perto òe 20 anos, e sofreram os rigores òa
22 Poetisas Portuguesas
prisão que lhes eram impostos pelo Arcebispo òe Laceòe- monia, por orõem õo Conõe õe Oeiras — Sebastião José Òe Carvalho e Melo, mais tarôe, Marquez õe Pombal.
Foi em Chellas, na prisão, que para se entreter, Alcippe, — assim foi Ôenominaòa uma òas mais celebres poetizas que Portugal tem tiòo, se õeòicou ao cultivo Òas Letras e ôas Musas.
A Marqueza ôe Alorna — teve, por òirector espiritual, D . Frei AlexanÕre õa Silva, tio òe Garrett, a quem por muito tempo foram atribuiòas as obras òo auctor Òo Frei Luiz õe Sousa.
Aòmiraòa pelo seu 4alento e rara beleza que fez sucesso na Corte õe Vienna ò'Austria, onòe esteve acompanhanòo seu mariõo, o conõe òe Oyenhausem, Alcippe brilhou não só nos Outeiros, onòe acorriam os poetas da Arcádia Lu sitana, a ouvi-la, como se notabilisou pelo impulso que õeu á nossa literatura.
Theophilo Braga, na Carta Prefacio que anteceõe o bem feito e conscencioso livro õe D. Olga õe Moraes Sarmento ôa Silveira, Mulheres Illustres, — A Marquesa de Alorna — obra õonõe extrahi algumas òas notas que reproõuzo, òiz õe Alcippe, «que teve o òom õe encantar os granões poetas õo seu tempo, e õe iniciar a renovação literária Õo Proto Romantismo, reconhecenõo e õiriginõo a vocação incipiente õe Alexanòre Herculano>.
O quaõro, A solidão, que fez em Vienna õ' Áustria, atesta os seus merecimentos como pintora òistincta.
As obras poéticas e traõuções õe Alcippe formam 6 vo- lumes.
A já numerosa bibliographia Alorniana, foi enriqueciõa, em 1916, com um interessante volume, intitulaõo A Mar' que^a de Alorna, õe que é auctor o Senhor Marquez õ'Avila e Bolama.
Poetisas Portuguesas 23
SONETO Feito na cerca onde tabalhavam uns homens na agricultura
Feliz esse mortal que se contenta Com a herôaôe õos seus antepassados, Que livre Òe tumulto e òe cuiòaòos Só òo pão que semêa se alimenta.
D'entre os filhos amaòos afugenta A õiscoròia cruel ; vê õos seus gaõos, Sempre gorõos, alegres, bem trataõos, Numeroso rebanho que apascenta.
O throno mais õitoso é comparável Ao branòo estabo oeste que não sente De um sceptro õ'ouro o peso formiõavel ?
O que vive na Corte mais contente Provou nunca um prazer tão agraôavel Como o oeste Pastor pobre, innocente ?
Marqueza Õe Alorna. Obras Poéticas, Lisboa, 1844, volu- me I, pag. 16.
SONETO Di^endo-me uma pessoa que eu nunca havia de ser felij
Esperanças õe um vão contentamento, Por meu mal tantos annos conservaõas, E' tempo õe perõer-vos, já que ousaõas Abusastes Õe um longo soffrimento :
Fugi ; cá ficará meu pensamento Meõitanõo nas horas malograõas, E õas tristes, presentes e passaõas, Farei para as futuras argumento.
24 Poetisafi Pnr/n.gue^as
]á não me illuòirá um õoce engano, Que não trocarei ligeiras fantasias Em pesaõas razões òo õesengano. •
E tu, sacra VlrtuÒe, que annuncias A quem te logra, o gosto soberano, Vem õominar o resto ôos meus òias,
Marqueza õe Alorna. Obras Poéticas, volume I.» pag. 17.
SONETO A El-Rei, estando eu muito doente, em Chellas
Um moribunõo esforço, um fraco alento Inòicio ò'uma quasi extincta viõa, Envia uma infeliz, triste, abatiõa, DesÕe o leito ôa morte ao Régio Assento.
Moòéra, oh Soberano, o meu tormento. Solta o Pae, por quem choro ôiviõiòa : Esta voz, já sem força proferiòa, Faça em seu peito branòo movimento.
Quatro lustros, passaõos na amargura, Comprehenòe somente a minha iòaôe ; Entfo no quinto, e mais na sepultura.
Ah ! consente, Monarcha, por pieõaôe, Que mão paterna beije com ternura, Mate o ^osto quem morre ôe sauõaõe !
Marqueza õe Alorna. Obras Poéticas, volume I, pag. 34.
Poetisas Portuguesas 25
D. MARIANNA ANGÉLICA DE ANDRADE
D. Marianna Angélica Õe Anòraòe nasceu em Souzel, em 11 Ôe Maio õe 1840 e faleceu em 14 òe Novembro Òe 1882.
Foram seus pães D. Maria Francisca Pereira õa Silva e Joaquim Aníonio Serrano.
Foi em homenagem a sua maôrinha, D. Gertruões Angé- lica õe Anõraõe Ligeiro, viuva õe um rico proprietário, e com a qual viveu õesõe pequena, que D. Marianna Angélica õe Anõraõe aõoptou os apeliõos que usava.
Esta Senhora foi casaõa com o ilustre e notável homem Õe letras, Dr. Canõiõo õe Figueireõo. Desse matrimonio houve õuas filhas, senõo uma õelas a poetisa D. Rosalinõa õe Figueireõo Santos, õe quem igualmente me ocupo neste trabalho.
D. Marianna Angélica õe Anõraõe, foi uma senhora muito 'nstruiõa. Deixou õispersos muitos vestígios õo seu talento, na Ga^ieta Setubalense, õe que foi reõactora ; na Vo^ Fe- minina^ jornal a principio só colaboraõo por senhoras; no Aimanach de Lembranças^ etc.
Foi auctora õe uma comeõia, as Esporas do Alferes e traõuziu vários romances, publicaõos em õiversos jornaes.
As suas proõuções poéticas constam õe õois volumes : Murmúrios do Sado e Revérberos do Poente — (1882) preía- ciaõos por Gomes õe Amorim. Este ultimo livro apareceu poucos õias ôepois õe ter faleciõo sua auctora.
Com a õeviõa vénia, transcrevo o que se a acha a pag. 259 õo livro Figuras Literárias^ ' acerca õos Murmúrios do Sado :
*0s Murmúrios do Sado são a traõução completa õos sentimentos mais íntimos Õa autora, õas suas aspirações, õas suas crenças, õas suas tristezas, õas suas alegrias, õos seus õesalentos ; são as capelas õe flores, que as virgens
Dr. Oanii do de Figueiredo.
26 Poetisas Portuguesas
varsovianas arremessam á corrente, por se libertarem òe ruins cuiôaõos.>
De D. Marianna Angélica ôe Anòraõe que ôescenôia òo poeta Curvo Semeôo, também trata D. António õa Costa no seu livro, A Mulher em Portugal.
Um ano depois òa morte òesta Poetisa, seu esposo reu- niu, em folheto, as condolências que recebeu òe inõiviôua- liôaòes em õestaque na nossa literatura.
Se não estou em erro, Camillo escreveu, a esse propósito, uma sentiòa carta que figura no mencionado folheto que se intitula : Quator^e de Novembro.
A MINHA ESTRELLA!
Jamais se esconda tua luz tão bella, Formosa estrella de meu puro céu ! Ah ! que se um dia te não vejo pura, Toda a ventura para mim morreu !
Eu te procuro quando o sol nos foge E ainda hoje namorar-te vim ! Quando te vejo scintillar, querida, Esqueço a vida n'este enlevo assim !
Esqueço tudo quanto abrange a terra ; A paz e a guerra, e o prazer e a dôr! Deixando aos homens a ambição, que arrasta, A mim me basta teu feliz amor !
Se um dia, a vista, percorrendo espaços. Não visse traços de tão meiga luz, Ficava triste, sem amor, sem vida. . . No chão cahida deporia a cruz !
Marianna Angélica de Andrade. SMurmurios do Sado, Se- túbal, 1870, pag. 106 e 107.
Poetisas Portuguesas 27
XXXIII
MYSTERIOS DO TOUCADOR
Cassilôa foi ao baile, e tão formosa, Que fez inveja a toôas as senhoras ; Muito embora gentis, encantaõoras, Nenhuma era tão bella e magestosa.
Tinha a cútis rosaõa e setinosa, Tinha no olhar o brilho õas auroras, Tinha as formas perfeitas seôuctoras ; E ella passava altiva e õonairosa.
De walsas e sorrisos fatigaõa, Assim fallou õepois com a criaôa A sós, ao toucador venòo as feições :
<Fui rainha òo baile ! que patetas São os homens ! Recolhe nas gavetas Os òentes, o cabello, os algoòões >
Marianna Angélica ôe AnÒraòe. Revérberos do Poente, publicação posthuma. Porto, 1883, pag. 93 e 94,
D. MARIANNA BELMIRA DE ANDRADE
D. Marianna Belmira õe Anôraôe é, segunõo penso, aço- riana.
Em 1875, publicou em Ponta Delgada, um volume 5e ver- sos, intitulado Phantasias, õo qual extrahi a poesia que apre- sento.
Tem colaborado em vários jornaes, como A Folha, de que é directora, D. Alice Moderno, no Almanach de Lem- branças, etc.
28 Poetisas Portuguesas
Pertence, pois, D. Marianna Belmira õe Anõraòe, ao nu- mero õas muitas Senhoras Açoreanas que, por suas virtu- des e conhecimentos, se teem ôistinguiòo.
Lamento bastante, não ter nesta ocasião, os elementos necessários para poõer completar a biografia Desta Poetisa.
A MINHA TERRA (na montanha)
Quão bella, quão formosa nos parece
A terra onõe nascemos, onôe a infância
Alegre nos sorriu ÕescuiÕosa . . .
Toucaõa c)'alvas flores ! . . . Quanto amamos
Os sitios que risonhos percorríamos
Nos brincos infantis ; quanôo a innocencia
Com uma luz tão pura nos lembrava, ^
E entre as illusões ò'um mago sonho
A mente acalentaòa aòormecia !. . .
Por isso te acho bella, ó minha terra,
E quanòo a primavera nos assoma
A rir por entre graças e perfumes •
De pé sobre alto monte flexuoso.
Da tarõe ao pôr õo sol m'encontras sempre.
Alli sob a ramagem fluctuante
Dos alamos fronòosos que me cercam,
A vista se dilata embevecida ■ . .
O dorso da montanha que s'eleva
Coberto por formosas larangeiras.
Ao sopro animador da guarda amena
Desata-se em festões da côr de neve. • •
E as brisas que perpassam entre a folhagem
Correndo pelas copas do arvoredo,
Agitam-no qual manto prateado
Das auras ao capricho estremecendo . .
As aves voejando em borborinho
Poetisas Portiiqaesas 29
Aninham-se entre as ramas perfumaõas, Soltanõo em suas notas feiticeiras O hymno òa sauõaõe ao fim ôo ôia.
Alem a extensa renque ôe rochedos Alçanõo-se imponentes, escarpaõos, Em sua côr sombria traõuzinõo Reflexos ôa poesia granõiosa • Emquanto a contrastar co'a nuõez sua E como a engrinalõar-llie a fronte altiva Os cimos se recobrem Òe verdura. Onôêa o arvoredo, alvas casinhas Avultam aqui e alli emolòuranõo-se Das fayas na lustrosa ramaria.
Em baixo o oceano quêôo e lizo Estenôe-se indolente e suspiroso. . ■ Em doce languidez beijando a base Da villa cujas casas agrupadas Alli se apinham junto á verde encosta Os homens que desHsam brandamente Deixando após de si longas esteiras. . . Parecem bellos cysnes resvalando A' flor do crystalino e puro lago. - ■
Marianna Belmira de Andrade. Phantaúas, Ponta Delga- da, 1876, pag. 61 e 62.
CONDESSA DE ALMEIDA ARAÚJO
(d. HERMÍNIA FRANCO d'aLMEIDA ARAUJo)
A Senhora Condessa de Almeida Araújo, D. Hermínia
Franco de Almeida Araújo, nasceu em Lisboa.
Era a filha mais velha dos Viscondes de Falcarreira. Foi
asada com o Sr. Joaquim Palhares de Almeida Araújo,
rande proprietário.
Aos dotes de formosura e coração, aliava a Sr." Con-
30 Poetisas Portuguesas
ôessa õe Almeiòa Araújo, um temperamento veròaòeira- mente artístico que muito a fez sobresahir no nosso meio intelectual.
Ainôa está bem viva na memoria õ'aqueles que tiveram a feliciõaòe ô'assistir a alguns õos concertos, promoviòos pela Schola Cantorum (funõaõa por Alberto Sarti, no pro- pósito õe desenvolver entre nós o gosto pela musica reli- giosa), a agradabilíssima impressão que receberam, ao ouvir, alguns õos trechos que tão magistralmente foram cantaõos nelas Senhora Conõessas õe Almeiõa Araújo e õe Proença a Velha, õirectoras õa referiõa Schola.
Entre as composições que nestas festas õ'arte foram cantaõas, por estas Senhoras, citarei o Stabat Mater õe Pergolesi, A Rissurei^áo de Lazaro, õe Perosi e Ala porte du Cloitre, õe Grieg.
Foi, ainõa, nestes concertos, que se tornaram celebres entre nós, pela noviòaõe e pela forma porque foram exe- cutados, que Alberto Sarti fez ouvir, alem õe algumas Oratórias õo Abaòe Perosi, Terre Promise Õe Massemet» Rcquien õe Mozart ; Sete Palavras õ'HaYÕn, a missa de Palestrina, a Moabita, õe Thomaz õe Lima, o concertante õo «Amor õe Perõição», etc.
Parte õestas notas obtive-as õo livro Horas d' Arte, õe Alíreõo Pinto (Sacavém).
Em 1912, após uma curta existência, minaõa por granões õesgostos, faleceu a Senhora Condessa õe Almeiõa Araújo» a õistinctissima auctora õum pequeno e mimoso livro õe versos — Villancetes — cuja beleza e sentimento faciimente os leitores õesta Antologia avaliarão.
Estes Villancetes foram escriptos, no ultimo ano Õe sua viõa, mais como expansão d'alma ferida, que, propriamente, como manifestação poética.
Compilados postumamente por sua irmã, a distincta poe- tisa D. Zulmira Franco Teixeira e prefaciados por Júlio Dan- tas, é para lamentar que poucos conheçam os Vtllancetesi por não ter a edição entrado no mer ca£c.
Poetisas Portuguesas 31
VILLANCETE
Para sempre ouvir lamentos, Para sempre ouvir gemiôos, De que serve ter ouvidos ?
VOLTAS
Os meus ouvidos, outrora, Anôavam mal costumados : Ouviam sempre trinados, Cantigas a toda a hora. Mas para ouvir só agora Lamentações e gemidos, De que serve ter ouvidos ?
Ai, meu Deus, mais me valera Ensurdecer de uma vez, Pois não ouvindo, talvez Meu coração não soffrera. Não ouvir, ai quem me dera ! Senhor, para ouvir gemidos, De que serve ter ouvidos ?
Condessa de Almeida Araújo (D. Hermínia Franco d'Al- meida Araújo). Villancetes, Lisboa, 1912.
VILLANCETE
A desgostos sempre afeita, Nem eu já me lembro bem Do gosto que um gosto tem.
VOLTAS
Se para sof frer nasci, Não posso ter outra sorte : Soffrerei até á morte,
32 Poetisas Portuguesas
Morrerei como vivi Tantos òesgostos soffri, Que nem já me lembro bem Do gosto que um gosto tem.
Bem quizera em caba õia Recordar gostos passaòos : Nos òias amargurados Algum consolo teria. Ai, que viòa õ'agonia Que nem já me lembro bem Do gosto que um gosto tem.
Conôessa õe Almeida Araújo. 'Viliancetes. Lisboa, 1912.
D. MARIA CHRISTINA DE ARRIAGA
D. Maria Christina de Arriaga era a filha primogénita de D. Maria Christina Pardal Caldeira de Arriaga e de Sebas- tião ]osé de Arriaga Brun da Silveira e Peyrelongue, ultimo morgado da família Arriaga.
Nasceu na cidade da Horta e faleceu em 21 ou 22 de maio de 1915. Do que foi em vida esta virtuosa Senhora,,— que tanto protegeu os pobres e os infelizes, e que a tantos outros predicados juntava o de uma inteligência viva e de um espirito cultivado, di-lo o jornal O Telegrapho, diário noticioso da Horta, onde a morte de D. Christina de Ar- riaga foi muito sentida.
D. Maria Christina de Arriaga era irmã de José de Arria- ga, escriptor bastante conhecido e do dr. Manuel de Arria- ga, auctor dos Cantos Sagrados e das Irradiações, o vene- rando e probo primeiro Presidente da Republica Portu- guesa, a quem devo parte d'estes apontamentos, que me foram dados com a distincta e captivante amabilidade que lhe eram peculiares.
Poetisas Portuguesas 33
Esta Senhora era, por sua avó, D. Maria òa Pieõaõe Ca- bral õa Cunha Gooõolfim õe Ia Rocca, ôescenôente, entre outras pessoas notáveis, ôe : El-rei D, Affonso terceiro, 15.* neta; õo rei ôe Leão, Ramiro 2.", õuas vezes neta ; õe D. Hugo Capeto, Duque Õe França, Conõe õe Paris e Õe Or- leans, 12." neta.
D. Maria Christina õe Arriaga foi uma poetisa notável.
Em õezembro õe 1910, publicou, õe colaboração com seu sobrinho Roque M. õe Arriaga, M. Emilio, Marcelino Lima e Osório Goulart, um folheto, Paginas Soltas, cujo proõucto se õestinava ao Albergue Nocturno õa ciõaõe õa Horta que õesta Senhora recebeu granõe impulso. Cariõosa por exce- lência, era raro o õia, e isto suceõeu õurante anos, que não visitasse o asylo õe Menõiciõaõe, onõe levava consolo aos velhos e Unitivos á miséria.
Alem õesse folheto, escreveu um livro õe versos — Flo- res d' Alma, senõo também auctora õe muitos pensamentos que pela sua elevação e conceito são õignos Õe nota.
Serviu-me ainõa õe auxilio, para traçar estas ligeiras no- tas biográficas, uma obra monumental que, ha pouco tem- po, foi ofereciõa ao õr. Manuel õe Arriaga que teve a gen- tileza õe m'a Õeixar consultar.
Nesse volume que é õe õesusaõo formato, õe 217 pagi- nas, e que foi compilaõo por António Manuel õa Silva, com elementos postos á sua õisposição pelo Sr. Roque õe Ar- riaga, acham-se reuniõos inúmeros artigos õe jornaes, ilus- trações, folhetos, etc, que sem Õuviõa alguma virão a cons- tituir, um õia, um preciosa elemento õe estuõo, acerca õo õr. Manuel Õe Arriaga e õe sua familia.
UM SEGREDO
Quanõo a brisa vem beijar O linõo cálix õa flor, Lembro-me que traz õo sol Alguns segreõos õ'amor.
34 Poetisas Portuguesas
Elle moranDo tão longe Lá nesse azul õa amplibão, Talvez faça confiòente A suave viração.
De lá offerece seus raios, A sua luz e calor ; E' como prova eviòente Que á floresinha vota amor.
E o amor não meõe õistancias P'ra sua acção exercer, Naõa ò'elle está isempto, Tuòo poôe submetter.
Venõo a briza perpassar Beijanôo o cálix õa flor, Lembro-me trará õo sol Algum segreòo ò'amor. . .
Maria Christina ò' Arriaga. Na Ala do Bem, n." 1. Dezem- bro õe 1910. Paginas Soltas, pag. 20. Horta, 1910.
D. MARIA RIBEIRO ARTHUR
D. Maria Ribeiro Arthur nasceu em Lisboa. E' viuva òo co- ronel ôe infantaria, Bartholomeu Sesinanòo Ribeiro Arthur, auctor òe vários livros curiosos, entre os quaes citarei: (íírte e Artistas, 3 vol.; Da Legião Portuguesa ao serviço de Napoleão, etc.
Em D. Maria Ribeiro Arthur, que é uma senhora muito instruiõa, teve seu mariòo uma granõe auxiliar, nalguns ôos seus trabalhos literários.
No jornal O Repórter, òe 1896, escreveu esta Poetisa os seguintes artigos : Veraneando e Recordações de Peniche
Poetisas Portuguems 35
€ no jornal Branco e l^égro : aEnire o Cabo Carvoeiro e as Berlengas, Viagens no Paij, Peniche, Pelas Margens do Mondego^ Margens do Lima, Saudades do Lima, etc.
Também colaborou no Jornal da Infância onòe publicou va rias poesias, Universo, etc.
Actualmente, resiòe D. Maria Ribeiro Arthur, em Louren- ço Marques, onÒe vive em companhia ôo seu filho, o En- genheiro SesinanÕo Ribeiro, Arthur sub-Ôirector ôo Cami- nho De Ferro.
A MINHA PÁTRIA
Minha Pátria, és tão formosa como as pétalas õa rosa que nasce no solo leu ! Como é azul o teu céu, sauòoso o teu arrebol ! As tuas flores õe matiz tão variaõo e feliz, que mimosas, que gentis á viva luz Òo teu sol !
Que noites tão perfumadas! que linòas as maõrugaõas l Tens nos teus praõos bellezas, tens nos teus campos riquezas que poucos como tu tens ; mas um Tejo tão formoso, um Ave a gemer sauÒoso, um Douro tão alteroso como tu não tem ninguém !
E a rainha õo occiòente recostanòo-se inòolente pelas montanhas em flor, a sorrir-se, toõa amor,
36 Poetisas Portuguesas
quando a bafeja o luar, p'ra o namoraòo que a véla, que a faz tão rica e tão bella, e que prostraõo aos pés ò'ella Ih'os vai submisso beijar!
Tens as veigas ôo teu Minho, e no teu Algarve um ninho ô'amor, sob o sol arõente, tens, erguiôo altivamente, á liberôaôe um paòrão sobre as fraguas ôo teu Douro, que salpica areias ò'ouro : o teu seio é um thesouro, a tua voz uma canção 1
Como te amo pátria qu'riõa que foste tão alto erguiòa na Ivra ôo teu Camões, que ouviste as meigas canções ôo mimoso DernarÔim ôe Garrett as harmonias, õe Castilho as meloôias, soltas por formosos ôias sob a olaya Ôo jarôim.
Que tiveste um Herculano para com trabalho insano, pelo pátrio amor levaôo, ir Ôo abysmo ôo passaôo tua historia levantar e nas paginas ôa historia que é para ti toôa a gloria» ôe que heroes a memoria se vê altiva brilhar !
Poetisas Portuguesas 37
Oh pátria, eu amo-te tanto que por ti quizéra um canto soltar, um canto õivino, mas como é pobre meu hymno para ti meu Portugal, que o rouxinol amoroso escutas, meloòioso soltanõo o trinar sauõoso òebaixo òo laranjal !
Maria Ribeiro Arthur. O Universo lllustrado. Semanário ôe Instrucção e ôe Recreio, Lisboa, 1879, pag. 127 e 128.
D. MARIA HELENA JERVIS DE ATHOUGUIA E ALMEIDA
D. Maria Helena Jervis õe Athouguia e Almeiõa nasceu na ciõaôe õo Funchal. Pertence a uma familia ilustre òa Ilha ôa Madeira — os Jervis Ôe Athouguia,
Tenõo ficaôo órfã Ôe pae aos nove anos õe iõaõe, fof resiòir para o campo, na encantadora alòeia õe Nossa Se- nhora ôo Monte, um õos pontos mais linõos õa formosa e fértil Ilha õa Maõeira, local este que, sem õuviõa alguma, contribuiu pela sua fascinante belesa, para que no juvenil espirito õa Poetisa õe que agora me ocupo, se õesenvol- vesse o gosto e o amor pela poesia, que tão expontanea- "lente lhe brotaram õ'alma.
Trinta e tal anos esteve D. Maria Helena Jervis õe Athou- : guia e Almeiõa fora õa sua terra natal.
As impressões que recebeu esta õistincta Senhora, ao ! tornar a ver a alõeia onõe passara parte Õos primeiros anos õe sua mociõaõe, exprime-as numa linguagem simples e comovente na sua poesia intutulaõa iV/<m dia chovoso.
Apesar õe D. Maria Helena Jervis Õe Athouguia haver
38 Poetisas Portuguesas
enviuvaòo e contratempos Ò3 varia natureza a terem afas- taòo ôo convivio ôas Musas e õos estuõos, que sempre fo- ram o seu enlevo e a que com tanta meticulasiôaòe e cons- ciência se aplica, em 1909, apareceu a 2.» eôição Òo seu livro Òe versos, Mosaicos, prefaciaòo por Sena Freitas.
O proõucto òa venôa òesta obra que sahiu sob o pseu- Ôonimo õe Bertha de Athaide, õestinava-se a socorrer tu- berculosos pobres.
A 3.* eõição ôos Mosaicos que Ôeve aparecer em breve, contem bastantes poesias ineõitas.
De rêve en rêve L*amour nous prenõ
En riant. De rêve en rêve L'amour s'enfuit
En pleurant.
Bertha ôe Athayôe. Mosaicos, 2.» eÒição, pag. 65.
A LAGRIMA
S.iUt lacrimae reram. (Eneida).
VIRGI. IO.
Nasce no berço a lagrima Tão õoçe e crystallina Como o orvalho ôo céu ; E morre sobre a campa, Amargurada e triste, Como ôa treva o véo.
E' que na infância a lagrima E' filha õo sorriso ; Tem prismas õa Alvoraòa Que vem Ôo Paraíso
Poetisas Portuguesas 39
Mas a que òesce ao túmulo Deriva Õa sauôaõe Vem õas existências finõas, ReÒime a humaniõaõe.
Nos lirios e nas rosas, Em seus formosos cálices, Ha lagrimas também ; Penosas õeslisanòo Quanõo, no seu canteiro As colhe õa haste alguém.
Do naôa, nos abysmos, Pois o pranto, não é Filtraòo pela õôr Dos martyres ôa fé ?
Lá no munòo ôos munôos Caòa estrella que nasce Caminha e resplandece, Deixa canôente o sulco No pranto maguaõo D'um astro que esmorece.
Bertha òe Athayõe. 'íMosaicos, 2.' eõição, pag. 107 e 108.
REMINISCÊNCIA
Eu me lembro ainòa era pequenina — D'uma noite. - . que noite sem luar ! Cahia tanta chuva. . . tanto frio . . Que toôos se acolhiam junto ao lar.
Não se viam estrellas reluzentes Espreitando ôe Vénus os amores ; Nem õas faõas se ouviam as ballaôas, Nem òos campos brotavam lindas flores.
40 Poetisas Portuguesas
E no horror õ'essa noite procellosa, Minha mãe me ensinava uma oração, Para o vento amainar, õo mar as onôas, E ôesviar õo munõo a maldição.
E òepois, no meu berço Ô'innocencia, Embalavam-me os anjos a sorrir. . . Quanòo eu também alegre e já sem meòo, Sorria-me para elles a õormir.
Dertha Òe Athayõe. Mosaicos, 2.» eôição, pag. 97 e 98.
«AZUL» "^
(D. ZULMIRA DE ALMEIDA FRANCO TEIXEIRA)
D. Zulmira ò'Almeiõa Franco Teixeira nasceu no Rio òe Janeiro. E' filha ôe D. Carolina Augusta Ferreira ò'Almeiôa, Viscondessa õa Falcarreira e ôe Pompilio Augusto Gonçal- ves Franco, Visconde õo mesmo titulo, Fidalgo Cavaleiro da casa Real, Comendador das Ordens de Christo, da Con- ceição, etc, e uma das figuras mais insinuantes õo seu tempo e que tantos benefícios proõigalisou, protegendo os pobres e desamparados.
Pelo lado materno é D. Zulmira ò'Almeida Franco Tei- xeira aparentada com as famílias do Conde de Carvalhiôo e do Visconde de Ferreira d'Almeida, o importante e co- nhecido banqueiro brazileiro.
D. Zulmira Teixeira que é casada com o Sr. Luiz Virgílio Teixeira, antigo Deputado da Nação e 1." Secretario de Legação que durante muitos anos prestou serviço nas Le- gações de Portugal, em Madrid e nò Rio de Janeiro, é neta de ]osé Gonçalves Franco — fundador da primeira casa Bancaria Portuguesa, do seu tempo, que foi pae do Vis-
Poetisas Portuguesas 41
conôe õa Falcarreira e òo Marquez õe Franco que lhe su- cederam na gerência Ôe seus importantes negócios.
Apesar õe uma ou outra vez terem siõo publicadas na Ilustração Portuguesa, Jornat da Mulher^ Diário de Noticias, Dia e noutros jornaes, poesias òe D. Zulmira õ'Almeiõa Franco Teixeira que tem usaòo sempre o pseudónimo A^uL a maioria Õas inúmeras composições poéticas que, ôiga-se òe passagem, sua Ex.^ produz com extraordinária facilidade, está inédita, devendo uma parte desses versos figurar numa luxuosa obra em que trabalha ha bastante tempo esta Poetisa.
A este livro está assegurado, por certo, grande êxito no nosso meio literário e artístico, successo para que contri- bue não só as apreciáveis e belas produções de sua au- ctora, como também as assignaturas òe distinctos Mestres que, inspiranòo-se nos versos Òe D. Zulmira Teixeira, fir- mam as aguarelas, pasteis, sanguíneas e musicas que Òeve- rão ornar esta Obra que ficará senòo um granòe e notável Repositório d'Arte.
NO ANNO DE 1917 (inédito)
O' coração humano ! Obra divina, Sacrário de clemência e de doçura Emprestado por Deus á creatura E aonde a clara face Elle reclina :
O que é feito de ti, ó pequenina Parcela de uma essência forte e pura ? Como te ha de encontrar quem te procura Hoje, na humanidade que se arruina ?
Só vejo — ó dôr ! — por esse mundo vasto, Nuvens de fogo, e em sanguinário rasto, . Crimes dos homens que perdidos vão . .
42 Poetisas Portuguesas
E o coração, fonte Ôe amor constante, MuÒaõo é errefeciòo a caòa instante, Na taça venenosa õa ambição.
<Azul> (D. Zulmira õ'A!meiôa Franco Teixeira).
O OUTOMNO
Dias òe Outomno, õias sem eguaes ! O sol tem fogo, mas não queima, aquece. Se já òo trigo não se avista a messe, Chilreiam ainõa alegres os parõaes.
Sob os troncos erectos õos pinhaes
— Braços õa natureza em muòa prece A urze côr òe rosa até parece Tapete òe aòornar paços reaes.
Nos castanheiros riem os ouriços. E Òeixam tremulanòo, moviòiços, Cahir o fructo novo, cheio e são.
E eu julgo-me òoiraòa e fina abelha
— Scismo na tua bocca tão vermelha Ao vêr meòronhos rubros pelo chão.
«Azul> (D. Zulmira ò'Almeiòa Franco Teixeira).
TU E SÓ TU
De ti só veio a minha musa triste. Para ti vae o meu cantar magoaòo ; As tristes notas ôo meu triste faòo São para ti, ó Bem que me fugiste :
Poeíisas Portuguesas 43
Em ti só vivo e lá comtigo assiste Meu pobre coração alanceaôo : Para ti, o meu sonho illuminaôo, E's a essência òe tuòo quanto existe.
Só os teus õeôos ò'oiro me susteem O' meu eterno mal meu õôce Bem Quero òeixar-te e sinto que não posso . .
Se ao menos juntos e na mesma cova Poôesse, aberto n'uma seiva nova, Florir n'um livro, caôa beijo nosso !
«Azul» (D. Zulmira Franco òe Almeiõa Teixeira).
SOL
(inédito)
Ninguém òeve ôizer «Esse õia linôo !> Por que faz sol e que athmosphera é calma Devemos consultar os olhos ô'alma, — Olhos que só a ventura vae abrinòo.
Que nos importa o Ceu e o mar infinòo, Do lirio a flor ou ôa palmeira a palma A fonte que refresca e nos acalma Ou a espiga que õe pão nos vae nutrinòo ?
O que poõe affligir a noite escura
A quem n*ella se encontra ou se aventura
Ou que as estreitas fujam ôe onôe estão ?
Que nos importa um temporal õesfeito, Se sentimos calor dentro ôo peito. Se é Õia claro em nosso coração ?
tAzul» (D. Zulmira Franco ô'Almeiõa Teixeira).
44 Poetisas Portuguesas
VISCONDESSA DE BALSEMÃO
(d. CATHARINA MICHAELA de SOUSA CÉSAR D li LENCASIPE)
A Visconõessa õe Balsemão, D. Catharina Michaela Ôe Sousa César ôe Lencastre, primeira VisconÕessa õo citaòo titulo, nasceu em Guimarães a 29 òe Setembro òe 1749. Foram seus pães D, Rosa Maria ôe Viterbo César Õe Len- castre, filha ôos segunòos viscondes Ò'Asseca e Francisco Filippe òe Sousa òa Silva Alcoforado.
Foi casaôa com o primeiro Visconôe õe Balsemão, Luiz Pinto õe Sousa Coutinho, antigo governaôor õa Capitania õe Matto Grasso e õiplomata e estaõista.
Acerca õa VisconÕessa õe Balsemão que foi amiga in- tima õa Marqueza õe Alorna {Alcippe) e õe D. Francisca Possolo, outra poetisa notável õessa época, õiz o Diccio- nario' Popular Õe Pinheiro Chagas :
«Cheganõo á capital õa Grã Bretanha, conheceu D. Ca- tharina quanto era õeficiente a instrucção que havia rece- biõo e buscanõo õiversos pretextos para se afastar õa so- cieõaõe, viveu por mais õe um anno em completo isolamento entregue ao estuõo õas línguas e litteratura ingleza, fran- ceza e italiana>.
«Depois õesse tempo õe reclusão, a que voluntariamente se conõemnára, appareceu nas reuniões õa corte e em sua própria casa se juntavam os homens mais õistinctos õe Lonõres, e pela convivência com as illustrações õ'essa granõe ciõaõe alargou os conhecimentos que havia aõqui- riõo õurante o seu isolamento>.
Ao regressar a Portugal, teve granõe numero õe aõmira- õores, senõo a sua casa frequentaõa por õistinctos cultores õa poesia e õas belas letras.
Poucas foram as proõucções poéticas õa VisconÕessa õe Balsemão que foram publicaõas.
O Soneto Mesericordia que reproõuso, foi feito por D.
Poetisas Portuguesas 45
Catharina, em 4 õe Janeiro õe 1821 (òia em que faleceu), ôepois õe ter cumpriõo os últimos õeveres religiosos que a sua consciência lhe ôictou.
O Saceròote, que assistia aos últimos momentos ôa Vis- conõessa òe Balsemão, e a quem ela peôiu que lesse essa composição, não pouõe passar alem Òa 2.» quaôra, pois que ao começar a ler o primeiro terceto, faleceu D. Catha- rina.
Os trabalhos mais notáveis õa Visconõessa õe Balsemão, são:
Ode ao Marque^ de Pombal, o seu soneto â morte de Go- mes Freire e as suas proõuções inspiraõas pela Revolução Õe 1820.
Pela forma porque nas suas composições õescrevia o amor, foi cognominaõa a Sapho Portuguesa.
MESERICORDIA
Granõe Deus! que Õo alto õ'esse throno, Lanças o braço ao peccaõor contricto ; Escuta Õo remorso humilõe grito, Das tuas leis perõôa o abanõono.
Tu, õa graça efficaz único Õono, Que nunca a pena igualas ao õelicto, Dá-me socego ao coração afflicto. Tão próximo a jazer no eterno somno ! . .
Bem õebaixo õe magica apparencia Encobri os requintes Õa malõaõe. Mas qual é hoje a triste consequência ?
Ah ! Senhor ! recebei-me com pieõaõe ! . . Tiraste-me õo abysmo õa impruõencia, Dai-me uma venturosa eterniõaõe.
Visconõessa õe Balsemão (D. Catharina). Àlmanack Luso Brasileiro para 1858, pag. 237.
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SAPHO
Sapho ao mar se precepita Por impulso ôa paixão, Vinga em si o alheio crime Da perfiòa ingratiõão.
Muitos annos respeitaòo Foi o peneôo fatal, Mas por força õ'um exemplo Logo um mal causa outro mal.
Se fizessem assim toõas, Que se vêem ôespresaõas, Forão ôe victimas tristes As brancas onõas coalhaòas.
Sem ti que vale a firmeza, O' santa conformiõaòe ? Tu a perõoar ensinas Loucuras òa humaniòaõe.
Viscondessa õe Balsemão (D. Catharina). Almanack de Lembranças Luso- Brasileiro para o anno õe 1863. Lisboa, 1862. pag. 376.
UMA PAIXÃO
Inòa existe, cruel, inòa em meu peito Se nutre òa paixão o fogo activo ; Inôa contra o teu gosto por ti vivo, Fazenôo o sacrifício mais perfeito.
Inôa te aõoro, ainôa te respeito. Venõo em ti õe meus males o motivo, Porem o coração, õe amor captivo. No captiveiro vive satisfeito.
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Se ás vezes contra ti queixumes solto, Do que fiz insensato então me aõmiro, E aos meus antigos sentimentos volto.
Só por ti vivo, só por ti respiro ;
Sahirá com a minha alma em pranto envolto,
Teu nome uniòo ao ultimo suspiro.
Visconôessa õe Balsemão (D. Catharina). Almanack de Lembranças, 1857, pag. 227.
D. HORTENCIA PAULINA DE LIMA BARBOSA
Apesar õe D. Hortencia Paulina õe Lima Barbosa, ter «scripto ôiversas vezes, na Grinalda, jornal Ôe poesias ineõitas, publicaòo no Porto, nos anos òe 1855 a 1869, pouco sei acerca besta Poetisa a quem Innocencio se não refere no seu Diccionario.
Esta Senhora viveu em Ponte Òa Barca, localiòaòe ôon- í>e ôatou algumas ôe suas proõucões poéticas.
Na Grinalda que é um jornal curioso e bastante apre- ciaôo, e que teve seis anos õe existência (caso raro entre nós, em publicações õesta natureza) alem òe Nogueira Lima e J. M. B. Carneiro, seus redactores, colaboraram : Guerra Junqueiro, Alexandre Braga, Alexandre õa Concei- ção, Alberto Pimentel, Augusto Luso, Camillo Castello Branco, Custodio José Duarte, D. Clorinda M. Ernesto Pinto de Almeida, Faustino Xavier de Novaes, Francisco Joaquim Bingre, Sousa Viterbo, Guilhermino de Barros, João de Deus, José Maria de Sousa Monteiro, José Ramos Coelho, Júlio Diniz, Furtado Dantas, J. Guilherme Lobato Pires, J. M. Barbosa Carneiro, J. M. Nogueira Lima, Ma- nuel Duarte d*Almeida, D. Maria Amália Vaz ôe Carvalho
48 Poetisas Portuguesas
D. Mariana Belmira Ôe Anòraôe, D. Maria Peregrina õc Sousa, Soares òe Passos, Theophilo Braga, Thomaz Ri beiro, etc.
A PASTORA
Sou pastora, sou feliz Meus rebanhos apascento ; Na veròe relva me sento, Colho as rozas côr ôe Hz, Os jasmins e brancos lirios. Louros verões e martirios.
Vejo as margens encantaôas Do meu Lima, tão formoso* Deslisanòo preguiçoso Sobre as areias õouraõas ; Vejo o sol no céu brilhante De mil raios fulgurante.
Góso as noites tão saudosas Em que a lua prateaòa. De mil estrelles cercada, Corre as campinas vistosas ; Vejo nascer linòa aurora. Que com seu brilho namora.
As auras vejo brincando Co' as flores lindas mimosas, As folhinhas graciosas Sobre a terra debruçando. Pela manhã orvalhadas, A' tarde do sol crestadas.
Sou pastora, sou feliz. Meus rebanhos apascento ; Na verde relva me sento,
Poetisas Portuguesas 49
Colho as rosas côr Òe Hz, Os jasmins e brancos lirios Louros verões e martírios.
Hortencia Paulina ôe Lima Barbosa. A Grinalda, pag. 21 e 22, terceiro anno, Porto, 1860.
D. MARIA JACINTHA TEIXEIRA BASTOS
D, Maria Jacintha Teixeira Bastos nasceu em Lisboa.
E' filha õe D. Marina CanÔiÔa Villaverôe Teixeira Bastos e 5o faleciõo publicista e poeta Francisco ]osé Teixeira Bastos, auctor õas Vibrações do Século, Õos Rumores Vt4l- caniços e ò'outros trabalhos literários õe valor.
Dos quinze para os õezaseis anos, escreveu, esta Senho- ra, uns contos para creanças, os quaes foram publicaiios em vários jornaes òa província.
Datam, aproximadamente, õessa época, as poesias que insiro, e que senõo íneõítas, ôevo á amabiliôaòe Ôe sua au- :tora, queé casaõa com o õistincto aòvogaõo Dr. João Va- erio òas Neves Pereira, caricaturista õe merecimento.
O FUTURO
(tnedito)
Que é o futuro ? Enigma escuro P'ra nossa alma ! Na víõa calma Que se õisfructa, Ninguém prescruta O que elle trará.
E' boa a viõa . Na sua liõa.
50 Poetisas Portuguesas
Com tantos sonhos, Doces, risonhos Se vae passanôo, Não nos lembranòo Qual elle será.
Granôes castellos, Linòos e bellos, P'ra que os fazemos? Se nós sabemos Que p'ra o futuro O íaõo ouro Destrui-Ios-ha.
Futuro incerto ! Será ôe certo No fim a morte. Com esta sorte Triste que temos Nunca sabemos, Como elle virá.
Maria jacintha Teixeira Bastos.
MEU CORAÇÃO
(inédito)
Está ôoiòo ! Mas que querem ? Ficou assim, coitaòo, N'um õia malfa<>aÒo, Por uns olhos que ferem.
Olhou -os sem pensar Que uns olhos tentaòores PoÕem matar õ*amores Aquelle que qs fitar.
Poetisas Portuguesas 51
Não mais teve alegria Prenõeu-se e assim ficou E aqueile que o matou Ao vê-lo assim sorria.
Doiõo ! Quer-se matar ! Não ha um só momento Que o seu negro tormento O òeixe socegar,
Maria Jacintha Teixeira Bastos.
D. ELISA TOSCANO BATALHA
D. Elisa Toscano Batalha nasceu em Portel, uma ôas mais soberbas localiòaões òo Sul õe Portugal, vila alente- jana, onõe viveu por largos anos, e que ôista umas oito léguas õ'Evora,
Ha anos, publicou o seu primeiro livro Òe versos, ao qual ôeu o titulo õe Crepúsculos.
Passanõo a residir na Capital, tem esta Senhora colabo- raòo, em prosa e verso, em vários jornaes e revistas.
Para o Jornal da Mulher, alem õe varias poesias, escre- veu D. Elisa Toscano Batalha um ligeiro estuòo histórico, baseaõo numa novela Castelhana, Jaritla, cujo enreõo se prenõe com certas passagens õa nossa historia Pátria.
Esta õistincta Poetisa, que tem um fervoroso culto pela Literatura que aõora, trabalha numa serie òe crónicas e artigos que se referem á sua terra natal e arreõores, escri- ptos que tenciona publicar num õos jornaes òe Lisboa.
Em 1915, o seu soneto que cito. Meu Tormento, obteve a segunòa classificação, num concurso aberto pelo meneio - naòo Jornal da Mulher.
52 Poetisas Portuguesas
MEU TORMENTO
<Como sofre !> — me òiz 5oce e excessiva E tomanõo-me as mãos — «que õesalento ! Vê-se que ôa òesgraça o cruel vento, Aqui soprou, com inclemência viva,
EncaneciÔa tem a pensativa Fronte (assim posta quasi n'um momento) Ah ! vamos, faça meu o seu tormento Conte- me essa occorrencia pungitiva!
E calou-se. Entretanto, eu òigo assim : Bemòita seja, teve Òó òe mim, Commoveu-a a minha alma angustiada !
Quer saber as razões ?• . pueris talvez. . .
Olhe, certo vai rir-se ôesta vez,
E' que eu amei . . amei sem ser amaõa !
Elisa Toscano Batalha. Jornal da Mulher, n.' 97, ôe 30-5- 1915, 5.* anno, pag. 1409.
AN]INHO INFORTUNADO
E' pequenita. Só teas Dez annos e é fraquinha ; Alva loira, õelgaôinha. Costuma, õe quanòo em quanòo, Peòir-me a sua esmolinha.
Parece não ter ninguém ; Vejo-a sempre sósinha.
Pobresita ! quanòo peòe, Não insiste, não se exceôe.
Poetisas Portuguesas 53
E é só, com moòeração, Que co'a ôor nos olhos seus, Peôe, pelo amor õe Deus, Um boccaõinho ôe pão.
Ontem, òiante Òe mim, Alguém lhe fallou assim !
— A tua mãe onôe está ? Porque não vai ela aqui, Caminhando a par ôe ti,
E a terna mão te não õá ?
Porque, õe negro vestida, Vagueias tu, sem guariba. Pelo munôo, ao Deus ôará ? —
Ao que ela, então, responôeu !
— A minha mãe está no ceu, Acompanha-me õe lá. —
Elisa Toscano Batalha. Echos da Avenida, Lisboa, Julho õe 1916.
DE VOLTA AO CURRAL
Campina em fora, pela estraõa real, Eles lá vêem. Buscam o õoce Abrigo
— Formosos bois —
Vêem õo pascigo. Vêem no passo lento natural.
Entretanto, refulgem já no Ar Estrellas ; por isso ele, o bom amigo Maioral (um honraôo servo antigo) Grita, õe vez em vez, p'ra os animar.
54 Poetisas Portuguesas
E a sua ruõe voz (mas carinhosa) Casa-se aqui, então c'o som ôolente Dos chocalhos e esquiías. Belamente, Numa ingénua toaòa harmoniosa ■ .
Mas eis chegam emfim. Corre o maioral A abrir ôe par em par o amplo portão, E eles lá entram todos, Òe gangão, P'ra ôentro õo vastíssimo curral.
D'aqui vão p'ra cabana, sem õemora, E ali, ôepois, os levam a tomar O seu logar á farta mangeõora, Aonôe os prenôem.
Chamam-nos (é òo maioral a voz) Chega cá Baixel ! eh ! chega Galante ! Pachá, Formoso! ■ » Emfim, toòos e toôos — Que graça ! — logo vão, no mesmo instante. Bonacheirões, um e outro e outro após .
Então, estanôo toÔos já afinal No seu logar, comenôo a sã ração
E tuõo assim sereno Ceia o maioral : toicinho e pão moreno, Numa òoce e perfeita quietação. . .
Elisa Toscano Batalha. Jornal da Mulher, 3." ano, n," 16 Õe 30-5-1913, pag. 573.
Poetisas Portuguesas 55
MERCEDES BLASCO
(d. conceição victoría marques)
Mercedes Blasco nasceu no baixo Alemtejo como a mes- ma õeclara no seu livro, Memorias de uma Actrij, publica- do em 1908 (2." eòição), obra òonõe extraí alguns Õos Òa- Òos que figuram nestas notas biográficas.
Também usou em cartazes teatraes, os nomes õe Judit Mercedes Blasco e Õe Judit Mercês.
O verõaõeiro nome õe Merceôes Blasco, é Conceição Vicioria Marques.
Até aos 7 anos òe iôabe viveu com seus pães na Anda- luzia.
Depois passou a resiòir no Porto, onõe se instruiu.
Seu pae, José Maria Marques, tinha especial empenho em que a filha cursasse Medicina.
O temperamento irrequieto e a atracção profunda que sobre Mercedes Dlasco exercia a vida teatral, não lhe per- mitiu fazer esse curso, tendo sido, todavia, aluna da Escola Normal.
Um belo dia, sendo ainda menor, foge de casa pela se- gunda vez — mau grado o horror que seu pae tinha pelo teatro — e faz a sua estreia artística no teatro Chalet, do Porto, sendo-lhe confiados os primeiros papeis.
Em Lisboa, trabalhou nos teatros da Trindade e Avenida. Mercedes Blasco fez parte da companhia do teatro da Trin- dade, desde outubro de 1890 a maio de 1899.
Entre outras peças representou : Mam'^elle Nitouche, Moira de Silves, Piparote, Miss Helyette, O burro do Sr. Alcaide, etc.
As suas principaes creações que lhe mereceram a popu- laridade de que gosou, foram : o Morgadinho do brasileiro Pancracio,o Diabo Eléctrico, Miss Helyette, 28 dias de Cla- rinha, Solar dos Barricas, Mam^^elle Nitouche, etc.
Inteligente e dotada de uma bonita voz, Mercedes Blasco
56 Poeíisaè Portuguesas
ez sucesso, não só nas peças mencionaòas como tamben cantando faõos e canções.
Representou no Pará, e em MaÔriò nos teatros Lara Moderno e Romea. Em Lisboa, também trabalhou no Rea Coliseu òe Lisboa, Aveniòa, Rua bos Conòes, D. Amélia, etc
A' bibliografia teatral portuguesa — ôe que neste momen to me lembro terem siòo publicaòas as obras : JSo Theain e na Sala, por D. Guiomar Torrezão ; O l^htatro em Fralda por Olòemiro César ; liecordaçôes aa Scetia e de Fora d' Scena, por Augusto Rosa ; Impressões de Theaíro, por Bra: Burity ; Estros e Palcos^ por Luciano Corõeiro ; A Litera tura dramática em Portugal^ por ]. M. õe AnõraÔe Ferrei ra ; alem òos volumes sobre o actor António Peôro, Angeli Pinto e Palmira Bastos — o livro òe Merceões Blasco i mais um elemento que se vem juntar.
BOHEMIA
No seu olhar, tão negro e revoltoso, Luzia a chamma õe infernal malícia . . . Um riso branõo, um rastro òe caricia, Brincava- lhe no lábio apetitoso. .
E o manòolim trilhava òôcemente Sôb a pressão arõente òos seus òeòos, A murmurar-lhe uns òivinaes segreòos. . SeguinÒo assim religiosamente,
Uma canção singela e òesolaòa D'um estribilho languiôo e fremente, Recorõação òe tempo mais risonho,
— Talvez òa infância pura e Òescuiòaòa —
Que ela cantava òistrahiòamente.
A alma a errar pela ampiiòão ôo Sonho ! .
Merceòes Blasco. Musa Hysterica, Lisboa, 1908.
Poetisas Portuguesas 57
CASTA...
Quanõo a vejo passar, como o luar serena, Luzindo- lhe o puõor no meigo olhar escuro, Tenho a visão gracil òa palliõa assucena, Brotanòo altiva e sã ôas peôras ò'um monturo.
O oiro ôo cabello enrosca-se vaiòoso, Deijanõo-lhe, egoísta, a nuca õe setim. . • Das faces o palor òá-lhe ao perfil gracioso. Um mysticismo iòeal õe virgem ôe marfim. . .
E vae seguinôo alem, sem sombra ôe amargura Roçanõo a poõriõão e o vicio a caõa esquina ! E naõa vae manchar-lhe a virginal canòura Do riso que lhe encrespa a bôcca purpurina !
Por isso, ao vêl-a ir, como o luar serena, Luzinôo-lhe o puõor no meigo olhar escuro. Tenho a visão gracil ôa palliõa assucena, Brotanòo altiva e sã òas peõras õ'um monturo.
Merceões Blasco. oMusa Bysterica.
D. ESTHER AMÁLIA DA CUNHA BELÉM
D. Esther Amália ôa Cunha Belém nasceu em Coimbra, a 25 Òe ]ulho ôe 1856.
E' filha õe D. Magõalena Emilia õo Carvalhal õe Miranõa õa Silveira Vasconcellos e õo Dr. António Manoel õa Cunha Belém, cirurgião em Chefe õo Exercito, e auctor õe muitos rabalhos literários e scientificos.
Colaborou no Almanach das Senhoras, no Almanach D
uíf, na Creche, no Diário lllustrado (onõe publicou, alem ^Q poesias, perfis e biografias), e na Lisboa Creche.
Lisboa Creche, é um pequeno e interessantíssimo jornal
53 Poetisas Portuguesas
que foi publicaôo em Lisboa em Maio ôe 1884 ; foi seir eòitor Daviò Corazzi.
Teve por directores artistico e literário, respectivamente, Rapliael Borôallo Pinheiro e o Dr. Xavier Ôa Cunha, inôi- viôualiòaôes consagradas no munõo intelectual.
Neste jornal miniatura que é ilustrado e que traz o fac- simile 5a assignatura ôe caòa escriptor, colaboraram, entre outros, em prosa e verso :
D. Esther ôa Cunha Belém, D. Guiomar Torrezão. Dr. Cunha Belém, D. António ôa Costa, Brito Aranha, Camillo Castello Branco, Christovão Ayres, Barros Lobo, Eôuarôa Viôal, Gomes ôe Amorim. Fernanôes Costa, Fernando Cal- Ôeira, Fernanôo Palha, Francisco Palha, Fonseca Benevi- Ôes, Gervásio Lobato, Guilherme Ennes, Guilhermino de Barros. Lopes ôe Mendonça, Oliveira Ramos, Andrade Corvo, Pinheiro Chagas, Jaime Victor, Júlio César Machado, Palmeirim, Moura Cabral, Pedro Vidoeira, Ramalho Ortigão, Virgílio Machado, Visconde de Benalcanfor, VisconÔes ôe Castilho, (António e Júlio), Visconôe ôe Ouguella, Xavier Ôe Carvalho, etc.
Lisboa Creche foi ôeôicaôa a sua Magestaôe a Rainha Senhora D. Maria Pia. Destinava -se a auxiliar as Creches.
D. Esther ôa Cunha Belém fez os seus primeiros versos, contanôo apenas ôez anos ôe iôaôe.
As suas produções poéticas nunca foram reuniôas em volume.
JOÃO DE DEUS
dNSDtTO^
Na Festa
Vem trazer-te a mociôaôe Cantos, flores — que o tempo foge ! Diz o mestre com bonôade : — A vida é o dia de hoje.
Poetisas Portuguesas 59
Na Morte
Murcham as flores, geme a lyra Como a ventura se esvai ! Morre o poeta e suspira : — A vida é folha que cai.
Esther Amália õa Cunha Delem.
AS ROSAS DA RAINHA
Como a Rainha Santa a historia grato encanto Sublime e angelical ô'amor e Ôe pieõaõe Um õia meigamente, abrinòo o régio manto Em rosas transformara o pão 5a cariòaôe ;
Hoje, outra existe assim, Ôe quem meigos sorrisos Faz bálsamo que extingue alheias funôas Ôôreô ; Que em luz converte as trevas, as lagrimas em risos Em agasalho o frio, e em cuiõaòo as flores.
Esther Amália ôa Cunha Belém. A '^Prece, Lisboa, 1884.
A CRECHE
A Creche : — um tepiõo ninho ToÔo formaôo õe Amor ! Onòe as meigas crianchinhas Revivem ao seu calor !
E' como um ceu constellaòo D'essas estrellas formosas Onòe sorriem os anjos Onòe florescem as rosas.
Esther Amália òa Cunha Delem. Lisboa Creche, (Maio Òe 84).
60 Poetisas Pòríugueòas
PARA OS ORPHÃOS
Aos pobres, coitaòinhos. Christãos õaí uma esmola O' mães, ôai-lhes carinhos Dai-lhes ó pátria a escola !
E assim tornemos riõente O seu Òestino escuro A's pombas õo presente, A's águias òo futuro !.
Esther Amália ôa Cunha Delem. Para os Pequeninos. 1885 (Jornal a favor òa Associação protectora òas crianças).
D. MARIA RITA CHIAPPE CADET
D. Maria Rita Chiappe Caôet nasceu no Algarve, seguníx supõe Innocencia ôa Silva. D. António Òa Costa julga-: lisboeta (pag. 304 õa éMulher em Poríus^alj.
Faleceu em 5 òe õesembro Ôe 1885,
D. Maria Rita Chiappe Caõet foi professora 5e francês < gerente ôa livraria Lalement. Colaborou em inúmeros jor naes e almanacks.
Em 1870, publicou um livro intitulaôo Versos. E\ também auctora ôe Sorrisos e Lagrimas (poesia), e Flores da In fancij. contos e poesias moraes, ôeôicaôos á mociôaôe por tuguesa.
Os Contos da Mamã e o Theatro das Creanças constituen uma graciosa colecção õe onze pequenas comeôias ôesti naôas á infância.
Foi esta Senhora, segunôo creio, a percursora, entre nós ôa lAteratura Infantil, para a qual tem escripto numeroso; livros: D. Maria Amália V. ôe Carvalho, D. Maria 0'Neill
Poetisas Poftiiguesas
D. Maria Feio, D. Emília òe Sousa Costa, D. Maria Sofia Machaòo (Santo Tyrso), etc.
Alem õas obras citaòas, o nome òe D. Maria Rita Chiappe Caõet está ligaòo a muitas outras composições originaes, imitações e traduções.
A VARINA
Nas longas praias sem cessar banhadas Das claras aguas ôo sereno mar, Meu pobre berço õe varina tive, Que as vagas vinham com amor beijar.
Ah ! foram ellas que affagaram ternas Tranquillos sonhos Ôe infantil viver. Que me ensinaram co'murmurio branõo A lei õo Eterno a respeitar e crer.
Que bellos sonhos na primeira iõaòe Minh'alma pura e juvenil creou ; Que meiga esp'rança no futuro aguarõa Quem o trabalho com prazer buscou.
Que importam liõas, se á faôiga affeito Meu braço póõe com aròor liõar ; Se o pão bemôito que o trabalho offrece Vem a meus pães consolações prestar.
Ah i se o meu rosto, como as jovens õamas, Mimo e alvura que ostentar não tem ; Se a brisa aòusía que ôo norte sopra As faces toôas requeimar-me vem.
Em troca õ'isso sinto o peito forte, Livre e robusto palpitar õe arÒor, E em meu caminho segreòar-me escuto Vozes que faliam õe um porvir õe amor.
62 Poetisas Portuguesas
Quanôo ao romper Õa maõrugaòa acoròo, Ergo-me e sinto o coração feliz, Minha alma pura Õe prazer trasborda E a Deus meu peito com fervor bemòiz.
Oh ! sim que ao brilho òa nascente aurora, Na luz serena que raiar se vê, Sente a varina palpitar-lhe o peito, E Dentro õ'elle vigorar-se a fé.
Não gasto enfeites, meu vestir singelo Não tem veluòos, ouropel, setim ; O breve lenço que o meu seio encobre. As largas abas òo chapéo varim.
A saia curta, õebruaôa apenas De orlas vermelhas sobre um runôo azul. Eis meu aõorno, Òa varina a gala, Minha riqueza, meu trajar taful.
Porém, que importa s'inõa assim não troco A sorte minha por um throno, oh I não ! Eu sou feliz n'esta pobreza honraòa, Trabalho e ganho com prazer meu pão !
Não sonho flores, nem setins, nem jóias, Vale mais que ellas meu gentil rubor, Que sob os trajos õe varina humildes Mais sobresae õa mociõaõe a flor.
O único sonho que na mente aífago, Única esp'rança que minh'alma tem, Toõa a ambição que n'este peito encerro. Que a par ôas crenças vegetou também,
E' ô'esse lucro que o suor me custa, Ténue parcella para mim guarõar. Pingentes õ'ouro comprarei com ella, E a cruz penõenõo õe gentil coliar.
Poetisas Portuguesas 63
Oh ! se o consigo, mais feliz na terra Mulher alguma viverá ôo que eu, Que importam liôas que o prazer esmalta, Doces trabalhos que abençoa o ceu !
Tomo a canastra que o meu peixe leva, E na ciòaòe que topar visinha. Vou pelas ruas pregoanDo alegre : <Biba, bibinha, quem a quer bibinha ?!...»
Maria Chiappe Caõet, Feríos, Lisboa, 1870, pag. 17 a 19.
D. LUTHGARDA GUIMARÃES DE CAÍRES
D. Luthgaròa Guimarães õe Caires nasceu em Vilia Real í>e Santo António.
E' filha ôe D. Maria Thereza õe Barros Guimarães e ôe José Roôrigo Guimarães que foi um granòe amaõor õe musica.
Pelo avô õesta Senhora — Daniel Baptista õe Barros — teve D. Luiz I especial estima, õatanõo esta amizaõe õo tempo em que o pae õe El- Rei D. Carlos I anõava embar- caõo como simples guarõa marinha.
O meio culto, em que õesõe bem nova viveu e se eõucou a ilustre Poetisa õe quem estou falanõo, influiu, por certo, bastante, para que no seu espirito germinasse o gosto pelo cultivo õas Leiras e õas Belas Artes, estuõos estes que tanto õesvelo e atenção merecem a D. Luthgarõa Õe Cai- res, esposa Õo muito conheciõo aõvogaõo Dr. João õe Caires.
Esta Õistincta Poetisa tem colaboraõo no Diário de No- ticias, Capital, Brasil e Portugal onõe publicou, alem õe carias poesias, um conto — O Conspirador — e no Secuio, onõe escreveu interessantes artigos sobre assumptos so- ciaes. Entre eles, merecem especial referencia :
64 Poetisas Portuguesas
Abaixo a penitenciaria (que contribuiu para a abolição òa mancara aos presos), e A Mulher na Sociedade.
D. Luthgarôa Õe Caíres é auctora òos seguintes trabalhos^, literários :
Em verso : Glicineas, Papoulas, 2.» eÕição, A Bandeira Portuguesa (exgotaòa), Pombas feridas (plaquete), Sombra?" c Cinjas, 2." eôição, A Revolta, peça em 1 acto, adaptação em verso, õe uma scena simbólica, escripta em prosa, por Nelly Roussel que permitiu que fosse ampiiaòa, o que D. Luthgarôa õe Caires levou a efei*o, visto a peça em ques- tão ser excessivamente pequena para poôer ser represen- tada.
Em prosa : -4 Dança do Destino.
A auctora òas Sombras e Cinjas, trabalha actualmente-: nas seguintes obras : O Dr. "Vampiro, romance, Castellos de Estreitas, poesia, e As ires arvores
A historia oeste ultimo livro é muito curiosa. Nas ires- arvores, serão publicaòos, alem õe alguns contos ineõitos, o nome õas pessoas que teem contribuiõo com roupas e õinheiro para a meritória obra õe cariõaõe que D. Luth-í garoa õe Caires, com tanta õevoção, iniciou ha 3 anos, ves- tinõo e Õistribuinôo brinqueõos ás crianças õos hospitaes e, em especial, ás Õo Hospital D. Estephania, funõaõo pela Rainha õo mesmo nome, a esposa õo Rei D. Peõro V,. hospital este, a principio, só õestinaõo á infância.
Toõos os meses, esta bonõosa Senhora compra brinque- õos e rebuçaõos que leva aos seus protegiõos-
A granõe festa õa õistribuição õas õaõivas que tanta alegria causa aos pequeninos õoentes, realisa-se no õia õe- Natal, senõo a promotora õesta bemfazeja e simpática obra^ auxiliaõa por õeõicaõas Amigas.
Para bem se avaliar õos primores õo coração õe D. Lu- thgarôa õe Caires, basta õizer que parte õo proõucto Ôa venõa õos seus trabalhos literários é õestinaõa a estes actos õe cariõaõe.
Poetisas Portuguesas 65
AVE, MARIA
Avè, Maria, Mater dolorosa. Cheia de graça e ôivinal fulgor ! Maria Santa, estrella raòiosa, Mãe òe Jesus, o nosso Reôemptor.
O Senhor é comvosco, Virgem Santa, Bemdita Sois, Vós, Casta flor Dos céus ! Que perlas finas, õe amargura tanta. Vós não chorastes, pelo amor õe Deus I
Entre as mulheres, Mãe immaculaõa, Bemdito é o fructo õa mais casta estrella ; No Ceu, na terra. Sois abençoaõa, E entre as mais santas, a mais pura e bella.
Do Vosso ventre, tão bemôito e santo Jesus nasceu, nosso ôivino Guia, Por quem Ôepois, correu o Vosso pranto, VenÔo-o expirar na Cruz, Santa Maria !
Luthgarõa Guimarães õe Caíres. Glycinias, Lisboa, 1910, ag. 29 a 32.
A VAGA
AÕoro-a ! como se aõora O que seõuz e fascina, — A vaga õiamantina Que me atrahe ê~me enamora.
Quanõo louca ôesarvora, E quanõo altiva õomina, Quanõo arrebata e extermina, Quanõo ruge. . . e quanõo chora.
66 Poetisas Portuguesas
Amo a sereia anõolante, A preguiçosa bacchante, Gemenòo queixas ôe amor. . .
Embora o seio turbado. Sob o seu manto prateaòo Alimente a morte e a ôôr !. . .
Luthgaròa Guimarães òe Caires. Glycinias, pag. 49 a 5í
LOURDES
Era ao entarõecer. Luz opalina. Como eu fiquei ali extasiaòa ! Perante a Virgem branca immaculaõa, Na sua gruta mystica e òivina.
Como lagrima pura, crystalina, Corria um fio õe agua abençoaòa. E uma rosa moõesta e õeslumbraõa, Na rocha tremulava, pequenina . .
Oh ! Mãe Celeste ! Até as próprias rosas. Mesquinhas oscilanòo ao vosso labo, Se curvam, vaciliantes, receosas!
E o vosso olhar, õescenôo iiluminaòo, Por sobre as multidões angustiosas, Reòime a culpa, e limpa ôe peccaõo.
Luthgaròa Guimarães õe Caires. Glycinias, pag. 203 a 20íi
Poetisas Portuguesas 67
ANTE UMA CAVEIRA
Quem foste ? Tu que és hoje uns restos õo passado ? Um martyr ? um banõiòo ? O' tu que foste alguém ! Quem sabe se inòa existe um peito angustiado que chore a tua falta. . . um coração õe mãe !. . .
Nas órbitas sem luz, talvez que uns linôos olhos, outrora com amor, chorassem combalidos. . . Talvez que o teu caminho, erriçaòo õe abrolhos, o regassem òe pranto os teus olhos perdidos !
E hoje, fria caveira, insondável mistério, nem a terra te abraça o teu craneo gelado ! Nem sequer tens lugar num triste cemitério, onde a saudade vá chorar o teu passado !
Luthgarõa Guimarães de Caires. Sombras e Cin:j[as, 1." edição, Lisboa, pag. 53 e 54,
D. MARIA JOSÉ DA SILVA CANUTO
D. Maria José da Silva Canuto nasceu em Lisboa, em 28 õe Janeiro de 1812 e faleceu em 20 de Janeiro de 1890.
Foi jornalista, poetisa e professora de ensino primário.
Colaborou em diversos almanachs, na Revolução de Se lembro, no Occidente, no Patwrama e na Revista Universal Lisbonense, na qual escreveram entre muitos outros ho- mens ilustres : António Feliciano de Castilho ; Alexandre Herculano; António Augusto Teixeira de Vasconcellos ; Pereira da Cunha ; António õe Serpa ; Silva Túlio ; Filippe Folque ; Francisco Palha ; Silveira Malhão ; Ferreira Lapa ; AnÕraõe Corvo ; João õe Lemos ; Costa Cascaes ; FraÕesso da Silveira; Casal Ribeiro ; Correia Calòeira ; Augusto Pai-
68 Poetisas Portuguesas
meirim ; Gomes õe Amorim ; Fernanôes Thomaz, Visconõe òe Sá ôa Banôeira, etc.
D. Maria José òa Silva Canuto publicou os seguintes trabalhos: Escavações e Conferencias Pedagógicas.
Foi, principalmente, á instrução que esta Senhora òeôi- cou o máximo Õe seu esforço e inteligência.
Morreu, õepois Ôe uma constante lucta pela viòa, con- tando 82 anos Õe iõaõe.
Se os últimos tempos õe sua longa existência não foram completamente angustiosos, Õeve-o a Rosa Araújo, — o iniciaõor õos granões melhoramentos Õa ciõaõe Õe Lisboa — que lhe conceõeu um subsiõio anual, que em parte lhe minorou a õesgraça Õe se ver entrevaõa.
MAGDALENA
A que outr'ora opulenta e raõiosa Õe belleza e õe amor não saciaõo, leito ebúrneo, õe arminhos recamaõo, a seus cultos sagrara caprichosa.
Eil-a. . aos pés õe }esus . tão lacrimosa ! De oõorifica unção lh'os tem banhaõo, com as áureas maõeixas enxugaõo. EsplenõiÕa na õôr ! sempre assombrosa !
A que outr'ora aos murmúrios responõia õe menestréis acorões com harpejos, que a seus festins opíparos reunia.
Muõa as turbas perpassa, ouve os motejos, Amor celeste a mente lhe alumia ; pranto e morte fixaram seus õesejos !
Maria José õa Silva Canuto. Almanach das Senhoras, 1878, pag. 153.
Poetisas Portuguesas 69
D. LUCINDA DO CARMO
D. Lucinõa ôo Carmo nasceu em Lisboa.
A 22 ôe Setembro ôe 1882, encetou a sua carreira artis- tica, representanòo, pela primeira vez, no Theatro Gymna- sio, senôo a peça, em que tomou parte. Estação Calmosa, comeõia em 3 actos, traòuziõa por José Augusto Ferro.
As principaes creações artísticas e peças em que mais se tem salientado D, Lucinòa ôo Carmo que no meio teatral português gosa òe justificaõo renome, e que conta geral es- tima e simpatia òo publico, são :
Niíoiiche, Lili, Carraça, Doutora, Notte do Calvário, Fei- ticeira, Innocencia, A Sombra, Cigarra, Intimo, etc.
No teatro D. Maria Pia, ôa ilha õa Maôeira, e nos Açores, representou D. Lucinòa õo Carmo toòo o seu reportório, alcançan&o extraorõinario successo.
Fazenôo parte õas companhias Furtaòo Coelho e Rosa e Brasão, representou, respectivamente, no teatro ôa Comedia de Madrid, õurante um mes, bem como no Rio ôe Janeiro e em S. Paulo.
Em Paris e em Maôriô, onôe esta Actriz tem estaôo em viagens ôe estuôo, assistiu a representações em que toma- ram parte os mais iminentes artistas Ôo munôo.
Em 1891, entrou para o nosso primeiro teatro ôramatico»
0 Teatro Nacional, fazenôo parte ôa Companhia Rosa e Brasão.
Em 1898, foi D. Lucinôa ôo Carmo nomeaôa sociataria ôe 1.* classe ôo mencionaôo teatro, onôe se tem conser- jvaôo até hoje.
Em Maio ôe 1912, foi-lhe confiaôa a regência ôa 7.^ Ca- [ôeira ôa Escola de Artt de Representar que funciona no
1 Conservatório ôe Lisboa. E' nessa caôeira, que se preparam os alunos para as
[provas íinaes que são publicas e em que os ôiscipulos mais [classificaôos ôisputam prémios.
Em 1911, publicou D. Lucinôa Ôo Carmo, uma ôas pou-
70 Poetisas Portuguesas
cas actrizas portuguezas que se teem òeòicaõo á^soesia, o seu primeiro livro (prosa e verso) intitulado Fora de. Scena. Como escriptora, colaborou no Almanach dos Palcos e Salas, Illustrado e ôas Senhoras.
AS PALMAS (monologo)
Quanto eu gosto òe as ouvir ! . . .
Fazem-me logo sorrir
Por mais triste que me sinta :
— E não ha quem me Desminta ; (Pelo menos se esse alguém Viver õa arte também
E artista fôr, ôe õireito.) São as palmas o mór preito Que o artista sempre anhela, A ovação — a mais singela — Sempre a nossa alma arrebata Porque, em summa, ella é tão grata Que nos deslumbra e extasia Como a pura luz ôo õia ! O templo 5a Arte aôoraôo E por tantos profanaôo Quantas vezes se anniquila Com a asneira que fusila Sem que alguém lhe tenha mão ? E cá fora a multiòão Sempre bôa, complacente, Tal profanação consente, (Pois só pensa em ôivertir-se) E acha graça, fica a rir-se ! . . .
Que santos, que ingénuas almas,
— Cae o pano . inòa òão palmas ! -
Poetisas Portuguesas 71
Se um artista é õe valor, (Aquelle que seja Acior) Que prazer ha ôe sentir Ouvinõo rir, se elle rir, E chorar, se elle chorar ! ? . . . Ouvinõo esturgir no ar As palmas e as ovações, Que mil gratas sensações D'alegria ha òe sentir ! ? . .
Ha õe, por força, sorrir. Ha Õe, por força, animar-se. Ha õe, emfim enthusiasmar-se ! Eu, por mim, naõa conheço A que õê maior apreço Do que ouvir uma ovação. P'las palmas, a õevoção. Em mim toca o fanatismo. — E até quanõo o paroxismo Da morte, se me abeirar Eu prometto não chorar Se no outro munõo as almas Me receberem com palmas ! • ■
Lucinõa õo Carmo. Fora de Scena, Lisboa, 1911, pag. 115 í 117.
D. AUGUSTA FERNANDES PESSOA DE CARVALHO
D. Augusta Fernanões Pessoa õe Carvalho nasceu em Bucellas, em 1886.
Apesar õe ter resiõiõo, até 1910, nessa localiõaõe, e Õe não ter tiõo professores que lhe ensinassem as verõaõeiras regras Õe metrificação, as suas proõucções poéticas lêem-
72 Poetisas Portuguesas
se com muito agraòo, lai é a singeleza e naturaliòaôe t>e que são revestiòas.
Foi no òiario, Novidades, que D. Augusta Pessoa òe Car- valho fez a sua estreia literária.
No Jornal da Mulher, têm vinòo, por varias vezes, poe- sias firmaòas por esta Senhora.
Os seus versos anòam Mspersos, senòo para lamentar não se acharem ainòa reuniõos em volume.
SONHANDO
Em linôa noite estrelada Que é o que eu penso sosinha Na janela òebruçaõa ? Aòivinha. . •
Que pensamento risonho Vae minha mente afaganõo ? Que riòente e alegre sonho Vou sonhanõo?
Não sabes, queres que òiga ? Mas eu sei lá o que penso Que iòeias a mente liga Com mais senso .
Eu comparo o pensamento Quanòo assim, na soliõão Ao espantoso movimento Dum tufão.
Não ha naõa que não venha Perpassanòo velozmente Transformar em õensa brenha Nossa mente.
São sauòaões, são lembranças. São tristes recorõações.
Poetisas Portuguesas 73
São meigas ternas esperanças Aos milhões.
Lembram maguas já passaòas Despertam sonhos riòentes, Mil iõeias são chocaõas Tão õifrentes ■ •
Mas Oura tuõo um momento Anõa tuôo a esvoaçar, Como as folhinhas que o vento Traz no ar.
E quanõo emíim despertamos D'aquele louco rever, Que projecto é que formamos A valer?
Ai pergunta embaraçosa De que eu livrar-me consigo, Um projecto. . . cor Òe rosa. . . Que não ôigo.
Augusta Pessoa òe Carvalho. Jornal da Mulher, II ano, n.» 43, pag. 259.
D. DOMITILLA DE CARVALHO
D. Domitilla òe Carvalho nasceu em Travanca òa Feira, òistricto òe Aveiro. E' filha òe D. Margariõa òe Carvalho e òe Manuel Roòrigues òe Carvalho, òe quem ficou órfã, con- tanòo, apenas um ano òe iòaòe.
Ao ^eu talento, perseverança, e exíorço próprio òeve D. Domitilla òe Carvalho a sua formatura que fez com alta òis- tinção na UniversiòaÕe òe Coimbra, nas antigas Faculda- des de Medicina, Matemática e Filosofia.
74 Poetisaê Portuguesas
Os estuòos preparatórios fe-los D. Domitilla ôe Carvalho em Bragança, Castelo Branco eLeiria onõe concluiuo curso.
D. Domitilla òe Carvalho foi a primeira senhora que fre- quentou a Universiòaõe ôe Coimbra. Tão inteligente como moõesta, alcançou nesta Universiôaõe as maiores Òistin- ções:
Na Faculdade de Filosofia, um premio e 8 accessits ;
Na Faculdade de Matemática, 2 prémios e accessits nas restantes cadeiras;
Na Faculdade de Medicina, accessits em toòas as cadei- ras Ôo 1.° e 2." ano e prémios em toÒas as caòeiras ôo 3.°, 4." e 5.' ano.
Foram-lhe também conferidos o Premio Barão CasteUo de Paiva (trabalhos anatómicos), e o Premio Alvarenga (ma- téria medica).
Não resisto á tentação de aqui transcrever uma ou outra passagem do prefacio com que Affonso Lopes Vieira abre o volume de versos, de D. Domilla de Carvalho, publicado em Coimbra, em 1909.
«Tenho a honra de pertencer á geração contemporânea em Coimbra da senhora ilustre que assina este livro.>
«Eu me recordo, como todos que no meu tempo eram sen- síveis, da graça moderna que imprimia á velha escola o seu vestido de estudanta.» .
«Relembro a admiração profunda com que os cursos a que ela pertencia falavam da condiscípula fraternal, que conquistou sempre, com o mais franco aplauso dos cama- radas e a rendida homenagem dos professores, as mais su- bidas distinções e prémios, honrando desta vez quem os conferia.»
<E, sobretudo, á minha lembrança acode que já então essa rapariga modesta, de uma formosura simpática e de uma gravidade risonha, que atravessava sozinha os nossos grupos, guardada pelo nosso respeito e pela sua alma, me fazia entender perante a desordem actual do feminismo, o que ahi ha de verdadeiro e de proporcionado.»
Poetisas Portuguesas 75
«O incanto õesta mulher está em que ella ficou a mais feminina ()as criaturas, õepois õa sua longa jornaõa através ia sciencia.»
Do valor õe seus Versos que eu também consibero ôos melhores õe quantos Senhoras Portuguesas teem feito, ainõa é o auctor òas Canções do Sol e do Vento, quem õiz :
«Se tivesse feito só estes versos — ôos mais sinceramen- te compostos e interessantes que mulheres portuguezas têm publicaõo — teria feito pouco. A vulgariòaôe Òas li- sonjas não é para aqui, Elias seriam bem mesquinhas para a mulher gloriosa que uma faculbaôe òe meõicina, violen- tando os preconceitos terríveis õe uma escola e õe um país, pretenõeu unanimemente contar entre os seus membros.»
A Acaõemia õe Sciencias õe Portugal, que ha pouco aca- ba Õe comemorar o seu primeiro decenario, honrou-se, ins- crevendo no numero õe seus sócios, a Doutora D. Domi- tilla õe Carvalho.
Esta Senhora foi õirectora õo liceu feminino D. Maria Pia, cargo que õeixou a seu peõiõo, para simplesmente nele exercer o Õe professora.
D. Domitilla õe Carvalho trabalha, actualmente, num ou- tro livro õe versos, certamente um novo primor literário, _
PORQUÊ?
Já que os nossos Õestinos são õiversos E vae finõar a luz que me alumia. Quero õizer-te em meus sentiõos versos Aquillo que fallanõo não õiria.
Has õe saber emfim quanta agonia, Quanta amargura e quantos ais õispersos Se traõuzem em toõos os meus versos — Se os teus olhos os lerem algum õia . . .
76 Poetisas Portuguesas
Como é que senõo tu melhor que um santo, TenÕo um conforto a òar a toõo o pranto, Tenôo sempre um allivio para a õor,
Como é que n'est^ magoa õoloriòa, Senòo tu, como és, a minha viòa, Assim me õás a morte, meu amor?
Domitilla õe Carvalho. Verbos, Coimbra, 1909, pag. 105 e 106.
FLOR QUE MORRE
No hospital
E' linòa como os anjos. Na pureza
Do seu olhar macio, avelluôaõo
Ha sempre a mesma febre e a mesma reza
Que o meu peito recolhe apieòaòo.
Com gesto òe quem peòe e essa tristesa De quem presente o fim amarguráõo. Ergue as mãos pequeninas òe princeza E sorri para toòos com agráõo.
Com aquella iòeal resignação
E a mesma fé em Deus nosso Senhor,
Ha Òois annos que a vejo Doentinha.
Quanôo presa õe immensa compaixão
Do seu leito me acerco : <— Está melhor?»
Ella responõe sempre «— Melhorsinha. . .»
Domitilla òe Carvalho. Versos, Coimbra, 1909, pag. 39 e 40.
Poetisas Portuguesas 77
ORPHAS
Vi-as passar, as meigas criancinhas, Vestes ôe luto em almas õe açucenas. E sorriam ! Também as avesinhas Vão levanõo a cantar as suas penas.
Sorriam, sim, contentes, a brincar Lá iam, como as aves pelo ceu Alegremente em banôo, a chilrear. . . Mas õe vê-las sorrir, chorava eu !
Domitilla õe Carvalho. Versos, pag. 47.
MINHA SINA
AnÕei por largo tempo a imaginar A Suprema alegria Õe te ver ! Tanto cuiõaõo puz em te guarõar E só te encontro para te perõer !
Seguia-te õe longe. Era um prazer, Um casto bem p'ra mim o recorõar Essa altivez õe porte singular Na esperança Õe um õia te merecer.
Tinha-te sempre a ti no pensamento. Só a tua lembrança õava alento A' õesolaõa viõa que me arrasta !
Bem sei que não tens culpa, é minha sina. Vae atraz õ'essa luz que te fascina Sê feliz, meu amor, isso me basta !
Domitilla õe Carvalho. Versos, pag. 83 e 84.
J78 Poetisas Portuguesas
POBRE MORTA
I
Entrou na viòa agreste e acciòentaòa — Revolto mar òe lutas inconstantes — Sem ter alguém, a pobre abanòonaòa, Que lhe guiasse os passos vacillantes.
Sem um raio òe luz n'esta jornada, Nem uns laços Òe amor cariciantes Que a prenõessem á viôa n'uns instantes, Por vezes quiz matar-se a Desgraçada !
Mas hoje, quanòo a morte percorria O seu corpo òe cera emagreciòo, Quanòo em gelos òe toòo arrefecia,
Ella ergueu para mim os olhos baços E sem força na voz, ôiz num gemiòo : «Não me òeixe morrer, òê-me os seus braços !
II
Vi- a ôepois, a pobresinha, fria, Sobre a mesa òe peòra revoltante Em que o ouro escalpelo principia A òissecar, num gesto torturante
E ella que em viòa tanto horror sentia Pelo theatro, pobre morta errante, Do repouso òo tumulo òistante, Resignaòa parece que sorria- . .
Não me poòe esquecer a immensa Òôr, Um mixto òe pieòaõe e òe terror, Que senti ao fitá-la com esforço :
Poetisas Portuguesas 79
Lábio roxo, cabello òesgrenhaôo,
Mas sobretudo o olhar ! o olhar paraôo,
Tenho- o cravaõo em mim, como um remorso.
Domililla ôe Carvalho, Versos, pag. 41 a 44.
D. MARIA DE CARVALHO
D. Maria õe Carvalho — a ilustre Poetisa que tanto honra as Letras Portuguesas — nasceu na Chamusca.
Os três sonetos : No Minho, O Lampeão e o Velhinho, que figuram nesta Antologia, foram pela primeira vez pu- blicados, ha muitos anos, nas Novidades que Òeles õisse :
«Cae-nos na nossa banca be trabalho estes sonetos. Não sabemos quem seja o auctor. Mas seja quem íôr, publica- mo-los por sentirmos que vamos õar a lume qualquer coi- sa que ha-õe ficar na lingua portuguesa.»
Estas proôucções que tantos elogios mereceram, foram «nviaõas para o citaôo jornal, contra vontaôe òe sua au- ctora, que, singelamente, as assignou com as iniciaes õo seu nome e apeliõo.
Poucos òias õepois õe publicados (ViÔe o artigo de Joa- quim Leitão, na Liberdade)^ D. João da Camará dizia numa das suas crónicas Õo Occidente :
«Dei estes três sonetos para ensaio de dicção ás minhas alunas do Conservatório, e disse-lhes : Decorem-nos por- que de facto decoram três sonetos que ficam na historia da literatura portuguesa».
Em 1915, D. Maria de Carvalho publicou um interessante livrinho As Sete Palavras, ao qual a critica fez justas e merecidas referencias.
Em 1916, apareceu o seu segundo livro de versos. Sone- tos, volume que contem verdadeiras jóias poéticas, como os leitores, pelas numerosas citações que faço, poderão avaliar.
!
80 Poetisas Porluguem^^
NO MOINHO
Ha na várzea um moinho que, isolado, Traballia alegre para toòa a gente, Aproveitando as aguas ôa torrente Que espuma nos açuôes. Levantado
Sobre a verdura rústica do prado, Que o sol inunda, preguiçosamente, Ergue a risonha e pittoresca frente. Esse moinho branco, enfarinhado.
Arrulham pombos no beiral vermelho Do seu telhado, e ladrão cão, já velho, Aos camponios, que passam no caminho .
Quem me dera que tu . fosses moleiro ! E eu te pudesse ter por companheiro, Na doce e branca paz d'esse moinho.
Maria de Carvalho. Sonetos, Lisboa 1916, pag. 43.
O LAMPEAO
Na moribunda luz bruxoleante D'aquelle pobre lampeão de rua, Triste, isolado, na parede nua, Achei um não sei quê, vago e tocante.
Mais triste ainda sob o alvor da lua . E puz-me a comparalo, n'esse instante, A' saudade confusa e palpitante, Que sempre em nós symbólica fluctua.
Pois se tivesse olhar o sentimento, Que nos faz acudir ao pensamento A lembrança do tempo já passado,
Poetisas Portuguesas 81
Devia ser assim — olhar sem viõa — Como a luz fraca, trémula, penôiõa, Do pobre lampeão quasi apagaôo.
Maria òe Carvalho. Sonetos, pag. 9.
VELHINHO
Muito velho, asseaôo e pobresinho, Peòe-me sempre esmola ás terças feiras Eu chamo- lhe, sorrinôo, o meu velhinho, E converso com elle horas inteiras.
Falla-me ò'um fiõalgo, seu paôrinho, Que lhe õeu um casal e algumas leiras ; Antes õe empobrecer teve um moinho E milho loiro, aos montes, pelas eiras.
E estas longas historias alõeãs, Tão humilòes, tão rústicas e sãs, ]á eu sei como o velho as principia :
— «Quanòo eu era rapaz. •» e ao terminar E' certo ouvil-o sempre confirmar : E' como ôigo a vossa senhoria.»
Maria òe Carvalho. Sonetos, pag. 37.
ESQUECIMENTO .
Ao ver o mal por toõos aõmittiôo, Como regra a que a viòa está sujeita — Ao trocar a illusão pela suspeita. Quem poôerá negar haver sofriôo ?
82 Poetisas Portuguesas
Depois, no coração fortaieciòo
Vae-se fazenõo a paz, quanõo se acceita
A crua viòa assim, tal como é feita
No munôo, sempre egoísta e corrompido.
Mas õe tuòo o que aõmitto, soffro e vejo, — Tão contrario ao que sinto e ao que Õesejo O que mais me perturba e me entristece,
O que afinal impéõe que eu me illuõa, E' a maneira auôaz por que se muòa, E a fácil rapiõez com que se esquece.
Maria õe Carvalho. Sonetos, pag. 17.
VIDAS
Algumas viòas ha em que parece Pesar não sei que estranha malòição ; Ha viõas, em que a òôr nunca se esquece De esmagar lentamente o coração.
Dias e ôias, em que se envilhece Como se fossem annos òe afflição ; Horas e horas, em que se apetece O gelaòo repouso ò'um caixão.
E julga sempre o munbo que avalia As razões òe tristeza ou òe alegria, Que tenta òescobrir em caõa viòa
E fala sem receio òe enganar- se !. . . Como se a òôr puòesse avaliar-se, Fora òo coração em que é sentiòa !
Maria òe Carvalho. Sonetos, pag. 35.
Poetisas Portuguesas 83
IV
Soffre-se tanto pela viõa fora, Que o desalento õeve perõoar-se. Saber luctar, viver e conformar-se, E' ôifficil missão para quem chora.
O rapiôo heroísmo õ'uma hora Poucas vezes consegue sustentar- se, E' um sublime, um canòiòo Disfarce Da fraqueza mortal que nos õevora,
O próprio Christo, sobre a Cruz exangue, - O corpo esbelto gottejanòo sangue. Jóias vermelhas n'um sagrado engaste. .
Teve um momento òe tamanha magua
Que soluçou, — os olhos rasos õe agua :
— Meu Deus ! meu Deus ! porque me abandonastes ?
Maria ôe Carvalho. .15 Sete Palavras, Lisboa, 1915, pa^. 21.
D. MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO
D. Maria Araalia Vaz òe Carvalho, a ôistinctissima Es- riptora e Poetisa, ôe que neste momento me ocupo, nas- eu na ciòaõe ôo Porto, segunôo afirma o Diccionario Fra- co Jllustrado òe Jayme Seguier e em Pintéus, segundo jsevera o Diccionario Portugal
Sua Excellencia é filha ôe D. Christina òe Almeiõa e Al- iquerque, senhora assas inteligente e culta, e ôe José Vaz
í Carvalho, inòiviòualiõaòe não menos ôistincta.
A minha aòmiração pelo talento e vastíssimos conheci- -sntos que possue D. Maria Amália Vaz òe Carvalho, é
84 Poetisas Poríuguef^as
tanto maior, quanto é certo que á notável escriptora, af ma o Sr. Christovam Aires, no Boletim da II classe da Ai. demia de Scicncias de Lisboa — «naõa foi ensinaõo.> «F; taram-lhe aquelles mestres, tantas vezes atrofiantes e esl rilisaôores, que toòos nós guarõamos entre as recoròaçõ õa nossa infância.»
Foi auxiliada pela sua granòe inteligência e proõigio memoria, lenõo, lenõo imenso, analisando, raciocinanõc fixanõo, que D. Maria Vaz òe Carvalho se transformou apreciaòissima e notável historiadora, jornalista, peõago e moralista, que nacionaes e estrangeiros admiram e v neram.
São de D Maria 0'Neill, as palavras que transcrevo, um seu folheto intitulado Uma Satisfação á Ex.'"^ Sr.* Maria Amália Vízf de Carvalho (Lisboa, 1911):
<0 seu olhar de águia, penetrante e fino, educado p ella na constante observação dos homens e das cous; abrange n'um relance os mais complicados problemas ps cologicos e especulativos, mas longe de se irritar e romp em justificada diatribe contra os erros e fraquezas da h manidade, o sorriso benévolo que lhe enfeita os lábios ô monstra que a experiência adquirida não lhe tornou seve o juizo, nem duro o coração, como quasi sempre succeò(
A mocidade de D. Maria Amália Vaz de Carvalho foi pa sada no velho solar de Pintéus, que, a breve trecho, se co verteu num centro intelectual, onde homens de nome n letras (isto succedia ainda no período romântico), iam prt tar a sua homenagem de admiração e respeito a D, Ma Amália Vaz de Carvalho, a juvenil Poetisa que aos de^ nove anos de idade, escreveu o seu primeiro livro, U' Primavera de Mulher, obra que para a Literatura Por guesa foi logo mais que uma esperança. Foi ahi em | teus, que Gonçalves Crespo, o mimoso e admirável p<i das Miniaturas, e dos Nocturnos conheceu D. Maria Arai Vaz de Carvalho com quem anos depois, se consorcio^.
Do valor dos trabalhos literários de D. Maria Amaliai
Poetisas Portuguesas 85
òe Carvalho, escriptos tcõos numa linguagem sã, clara, ver- nácula, bela e profunôa ou simples, consoante o assumpto ôe que trata, e a òespeito Òe, ha muito, ter o seu nome con- sagrado esta ilustre e notável Escriptora que é a auctora õa obra mais vasta e mais valiosa que Senhoras Portuguesas se poôerão orgulhar õe ter proòuziòo, fala a honrosa ex- cepção que a Academia de Siencias de Lisboa, em sessão ôa 11 classe, e por proposta ôe Henrique Lopes õe Men- donça, abriu, elegenòo D. Maria Amália ôe Carvalho, para o seu grémio, ôisíinção esta só conceõiõa, em Portugal, a esta Senhora e a D. Carolina Michaelis ôe Vasconcelos. - E' bem proveitoso, para quem com consciência queira apreciar as proôuções literárias ôe D. Maria Amália Vaz ôe Carvalho, ler o parecer que, sobre a sua canôiôatura, foi ela- boraôo por Teixeira ôe Queiroz, e assignaôo por :
Raymunôo A. ôe Bulhão Pato, Júlio M. ôe Vilhena, ]osé Ramos Coelho, José Leite ôe Vasconcellos, Henrique Lo- jies ôe MenÔonça, J. FernanÔes Costa, Jaime Moniz, Joa- '3uim Coelho ôe Carvalho, Gama Barros, Aniceto ôos Reis jonçalves Viana, António Canôiôo, Teófilo Braga, Christo- ;'am Aires e Francisco Teixeira ôe Queiroz, (relator). [. Este parecer que figura a pag. 484 a 493 ôo citaôo Bole- tim, baseia-se, principalmente, no importante estuôo histo- .ico ôesta Escriptora, O Duque de Palmela, obra em 3vo- ames. Como se os Acaôemicos que firmam a proposta e íarecer referiôos, não fossem só por si, bastante garantia ;o mérito Ôe D. Maria Amália Vaz ôe Carvalho, que no ci- [lÔo Boletim apresenta um interessante estuôo histórico, leòito até então, intitulado, A Murque:^a de Alorna — A Kiedade e a literatura do seu tempo, trabalho que não che- 3u a concluir, ainôa se lêem no mesmo Boletim, aprecia- res feitas pelo Sr. Conôe Ôe Sabugosa, Santo Thirso, Hen- que Lopes ôe Mendonça, etc.
Não obstante só em 1912, A Acaôemia ter aberto as suas irtas a D. Maria Amália Vaz ôe Carvalho, (visto precon- |itos ôe varia natureza e entre eles a infração ôos Esta-
86 Poetisas Por/nr/nasa,^
tutos o não terem permitiòo fazer antes), já D. Luiz I ma- nifestara vontaòe Òe ver esta Senhora eleita para essa õouta Corporação, como no seu belo livro Gente d' Algo, afirma o Sr. Conõe òe Sabugosa, um òos frequentaõores òos salões òe SM Catharina, onòe D. Maria Amália Vaz òe Carvalho tem reuniòo tuòo quanto ha òe mais selecto nas letras por- tuguezas.
Sob qualquer aspecto que possa ser encaraòa, a perso- naliòaòe òe D. Maria Amália Vaz òe Carvalho é notável. E', ainòa, o Sr. Cristovam Aires que escreve : <E nem por isso Maria Amália òeixou nunca òe ser í mais simples a mais bonòosa a mais singela, a mais òoce entre as mulheres portuguesas.»
«Nos seus belos olhos luminosos, muitas vezes o fulgoi òo génio é embaciaòo pelas lagrimas que a òôr humana nas suas ramificações infinitas lhe vae levar a caôa passo tão intensa é a comunhão òa sua alma com o sofrimentc òos humilòes, òos òesòitosos. òos pequeninos.>
«Quem um òia sentiu a Òore caricia òa sua voz- quen viu òe perto em toòa a sua soberania, a bonòaòe inegua lavei Òa sua alma, fica preso para sempre, mais òo que ac seu talento e ao seu saber, a quanto tem òe infinitamenti santo, simples e òoce essa fulgurante e rara encarnação ò< òp Mulher.» (Pag. V òo citaòo Boletim).
Para concluir estes ligeiros òaòos biographicos, resta-mi apresentar a nota òos numerosíssimos e valiosos trabalho òe D. Maria Amália Vaz òe Carvalho, que outr'ora firmot vários folhetins publicaòos em jornaes, sob o pseuòoninK òe Valentina de Lucena :
Uma Primavera de Mulher (poema), 1867, Vo^es do Erm (versos), 1876, Mulheres e Creanças (notas sobre eòucação] 1880-87, Contos e Fantasias, 1880, Contos para nossos filho (òe colaboração com seu mariòo, Gonçalves Crespo), 8 eôi ções. Arabescos, 1880, Urn como, 1885, Cartas a Luija (Mo ral, eòucação e costumes), 1886, Alguns homens do meu tem fo (impressões literárias), 1889 As Crónicas de Valentinc
Poetisas Portuguesag 87
1890, Cartas a uma Noiva, Pelo mundo fora, 1896, Arte de viver na sociedade ou manual da vida elegante, 4 eòições, Vida do Duque de Palmela, 3 volumes 1898-904, Em Portu- s^al e no esírangeiro (ensaios críticos), 1899, Figuras de hon- tem e de hoji', 1902, Cérebros e corações, 1903, 4s nossas filhas (carta ás mães), 2 eòições 1905-906. Ao correr do tempo, 1906, No meu cantinho (Homem, factos, ideias), 1909, Duquesa de Palmela (In Memoriam), 1910, Impressões de Historia, 1911, Cousas de Agora, 1913.
Jornaes em que sua Ex.^ colaborou :
Jornal do Comercio, ôo Rio òe janeiro, em que escreve ha 34 anos. Diário Popular, Jornal do Comercio, Repórter, (i4rtes e letras (jornaes ôe Lisboa), Actualidade, Porto, Co- mercio do Porto, Pai^ (Rio òe Janeiro), etc.
Depois òe ter manòaòo o original para a imprensa, soube por pessoa òa família Òe D. Maria Amália Vaz òe Carvalho, que esta Senhora nasceu em Lisboa, na. Rua Òos Poyaes òe S. Bento.
A ANDORINHA D'onòe partiste, anòorínha, minha alaòa forasteira, que á terra òa larangeira vens peòir luz e calor? D'este clima abençoaòo, chamou-te ao longe o carinho? terás so> sobre o teu ninho, e lá òentro muito amor 1
Aqui onòe a primavera,
se enfeita òe róseo manto ;
onòe òas aves o canto
verte harmonias sem par ;
onòe á noite se estrelleja
e palpita o ceu profunòo,
e áureas visões Òe além-munòo,
brincam nas onòas òo mar ;
88 Poetisas Portuguesas
aqui onôe em caòa flôr,
treme vivo e scintillante
um prismático Diamante,
que a aurora chorou ôos céus ;
onôe tuôo se illumina
òe mil ignotos fulgores ;
onôe pululam amores,
sob o amante olhar õe Deus;
onôe exhala. acres effiuvios a rama ôos loureiraes, e se une á flor ôos myrtaes ôa vinha o verôe festão ; aqui não terás sauôaôes n'este ceu que a luz esmalta, nem ôos terraços òe Malta nem õas brisas ôe Ceilão.
Vens talvez ôa velha Athenas onôe em ruínas marmóreas viste esculpiôas historias, que não sabes ôecifrar ? Deixaste acaso o teu ninho entre os mysterios òo Egypto, e a uma esphinge ôe granito, peôiste para o guarôar ?
Viste os brancos minaretes ? viste as cúpulas reôcnôas? e as verões profunôas onôas, e os floriõos arrozaes ? Conta-me as tuas viacens, filha ôa luz e ôa aurora que vens ôescançar agora á sombra ôós laranjaes!
Maria Amália Vaz ôe Carvalho. Fofes do Ermo, 1876, pag. lli a 113.
M
Poetisas Portuguesas ' 89
D. JOANA DE CASLELBRANCO
D. Joana õe Castelbranco que pertence á família Velosa Ôe Castelbranco, nasceu na Ilha òa Maõeira, freguezia ôo Fayal, onôe passou a sua infância e juventude.
Desõe bem nova, que D. ]oana õe Castelbranco verseja.
Apesar õ'isso, só em 1908 publicou em Lisboa o seu 1." livro òe versos, As minhas flores.
Posteriormente, reuniu esta Senhora, em volume, sob o titulo ôe Fluctuaçôes, algumas õas suas poesias.
Tem coiaboraôo em vários almanachs e jornaes.
TRISTEZA
Sou como a flor já mirraòa aos raios õo estio arôente ; sou como a onõa fermente, gemenõo alem sem guariòa ; Sou como a folha òo outomno, que morta no chão existe, sou como a lagrima triste òo coração òesprenòiõa.
Sou como a nuvem que passa tolòanõo o ceu tão formoso ; sou como o ai pieõoso que foge ao seio õescrente. Sou como a noite gelaòa em negro manto envolviòa, sou como folha cahiõa levaòa pela corrente.
Minha alma é muòa e sombria como o jazigo òa morte. Lucto e pranto é minha sorte no albor òo meu viver.
90 loetisas Portuguesas
Sinto empanar os meus gosos nuvens òe õor e tristeza ! Correr após a incerteza . . . luctar sempre. . . e só morrer !
Joanna Õe Castelbranco. ^5 Minhas Flores, Lisboa 1908» pag. 14. •
D. CAROLINA DA V. CASTELLO BRANCO
D. Carolina òa V. Castello Branco foi uma õas senhoras que colaborou na Miscelânea Poética, jornal ôe Poesias pu- blicadas Òesõe Julho Ôe 1851 a Agosto õe 1853 (2.^ Colec- ção), Porto 1852,
No citaõo jornal, figuram versos òe : D. Ana Amália Õe Sá, D. Antónia Gertuões Pusich, D. Maria Feliciõaõe òo Couto. Brown {Soror Dolores), D. Maria Peregrina õe Sou- za, A. C. Louzaõa, António Feliciano õe Castilho, AugustaJ Luso, A. Lima, A. P. Calõas, Augusto Pereira Soromenho,| Faustino Xavier õe Novaes, D. João õe Azeveõo, João Õ€ Lemos, J. Freire ôe Serpa Pimentel, Nogueira Lima, Pe- reira õa Cunha, Camillo Castello Branco, etc, etc.
A pag, 201 ôa mencionaõa Miscelânea Poética, ha umaf poesia ôe Camillo, intitulaõa Meditação, Ôeôicaôa a sua ir- ' mã, Carolina Castello Branco,
A pag. 73 õo referiõo jornal, encontrei a poesia que transa crevo e que é firmaõa por Carolina õa V. Castello Branco.
HavenÔo, na familia õe Camillo, o apeliõo Veiga, (o gran» Õe romancista teve uma tia chamaõa D, Rita Emilia õa Veiga Castello Branco), será a irmã de Camillo, a senhora a quem me refiro ? Esse da V. corresponderá a da Veiga f Será umt mera coincidência o facto que aponto ?
Não tenho elementos para esclarecer este interessante caso que em pouco se cifra.
Para o resolver, porém, parece-me que bastava saber:
Poetisas Portuguesas 91
» primeiro : se a irmã òe Camillo, D. Carolina Castello Branco
que, Ôepois õe se casar com o meõico Francisco José õe Azevedo, passou a assignar-se D. Carolina ô'Azeveòo Cas- tello Branco (Romance do Romancista, pelo Sr. Alberto Pi- mentel, pag. 37), alguma vez usou o apelido Veiga; segunõo : se fez versos.
Quanto a esta ultima parte, parente próximo Òe Camillo, informou-me que D. Carolina, não foi poetisa.
Tenõo recorrido a uma outra fonte segura e ò'auctori- saõa opinião sobre assumptos Camillianos, naòa consegui apurar.
Aqui fica posto o problema, para quem, com mais tempo e elementos õo que tenho e disponho, o queira solucionar.
Se esta Poetisa tiver sido a irmã de Camillo, grande se- rá a minha satisfação, por ter provocado o conhecimento desse facto. Se tal se não der, registada fica a coincidência que leva ás duvidas que apresento.
SCISMAVA
Passo aqui tardes, sósinha, Nestes prados verdejantes
A scismar : N'alma sinto as fundas maguas. Ao murmúrio d'estas aguas
Murmurar.
Quando assim me vejo triste D'um penar d'intima pena ■
Choro então ; Que eu não amo a natureza
Na solidão.
Amo-a sim, embalsamada Nos perfumes que lhe aspira A alma em paz ;
92 Poetisas Portuguesas
Mas se a Õor punge òe aguõa A natureza também muòa Não me apraz
Sei que a õor tem ôesafogo No alaúôe, terno amigo
Tam fiel. Faço trovas, mas as trovas São amargas, ouras provas
De agro fel !
Carolina òa V. Casteilo Branco. Miscellanea poética, 2. collecção, Porto, 1852. pag. 73.
D. CATHARINA MÁXIMA DE FIGUEIREDO ABREU CASTELLO BRANCO
D. Catharina Máxima òe Figueiredo Abreu Casteilo Bran- co nasceu em Guiães (pequena alôeia õo õistricto òe Vila Real), cognominada a Cintra Transmontana.
Esta Senhora tem uma ascendência muito ilustre, como se lê no livro Os Estrangeiros no Lima, obra rara e curio- sissima òe que é auctor Manoel Gomes òe Lima Bezerra, e que foi publicada em Coimbra em MDCCLXXXV.
No mencionado livro, diz-se que os •< Abreus são Òas fa- milias mais antigas e ilustres òo Reino.> «Segundo alguns auctores, provem da Casa Real de França pela linha e va- ronia òe Filippe e Carlos, Conòe òe Evreux.>
Nesta familia, tem havido, segunôo menciona o referido volume, muitos eruditos, preòestinaòos, heroes e santos.
Assim, citarei, por exemplo, os nomes òe Frei Manoel do Cenáculo, arcebispo de Évora ; D. Luiz Álvaro de Figuei- redo, arcebispo da Bahia ; Bernardo d'Abreu Casteilo Bran« CO, desembargador muito culto.
Poetisas Portuguesas 93
Apezar õe D. Catharina Máxima Ôe Figueiredo Feio só se õeõicar á literatura, nos poucos momentos que as suas ocupações caseiras lhe òeixavam livres, foi uma poetisa Òistincta.
O que acabo ôe escrever, faz-me pensar quantas Sevi- gnès e Georges Sano Portuga! poderia contar, se o nosso meio fosse propicio á revelação e òesenvolvimento õe mui- tos talentos e vocações que, por certo, se teem õefinhaõo e peròiòo !
Aos õezaseis anos publicou esta Senhora o seu primeiro volume òe versos, inMtulaòo Poesias.
E' também auctora ôe um romance. Amor de Mãe, pubti- cabo em folhetins, e ôe mais ôois volumes cujos titulos são : Fragmentos de Prosa e Verso e A Ultima Estancia, livro qué foi prefaciaôo por Xavier RoÔrigues Corôeiro, o notá- vel poeta, auctor ôo Tasso e ôa Doida de Albano.
O fragmento òa poesia, O Firmamento, que reproôuzo, é extractaôo oeste livro. Na opinião ôe um ôos nossos ho- mens ôe letras mais notáveis, poôe esta composição poé- tica figurar a par Ôa ôe igual titulo, ôe Soares Ôe Passos.
Tenôo siôo Soares ôe Passos acusaôo ôe plagiário, Theo- philo Braga provou na Revista Literária e Scientifica, ôe O Século ôe ôezembro ôe 1904, que a poesia Firmamento foi feita pelo auctor ôo Noivado do Sepulchro e não por Lourenço ôe Almeiôa e Meôeiros.
O FIRMAMENTO
E' noute ! • • sobre o munôo aôormeciôo, Fulge tranquillo o céo, profunôo e bello ! Eis a extensão immensa. . inôefeniôo Abysmo. • . ôe razão constante anhelo !
Seus limites quaes são ? Onôe termina Esta série ôe estreitas rutillaníes?. - . Nos paramos ô'um Deus ; mansão ôivlna, Povoaôa ôe aéreos habitantes ?
94 Poetisas Portuguesas
São munôos ; õa attracção no eterno laço Sustidos pelo impulso que não cança ; Giranôo sem ôestino n'esse espaço, Que o espirito nosso não alcança?. . .
Mas tantos, tantos munôos ? ! Esta iòeia Que esmaga o pensamento e a voz tem presa, Mais nos oífusca a luz, porque a alma anceia. Deixanõo-nos no vago a incerteza.
Que tormento, meu Deus! Não ser possível Haver õa gloria vossa a comprehensão ! ? Ser tuòo a tantos olhos o invisível, O vácuo òa insonõave! confusão ! ?
Catharina Máxima òe Figueiredo Feio. A Ultima Estancia, Porto, pag. 17.
COMPREHENDES?
Sabes porque no valle os brancos lirios choram Quanôo o fogo õo sol lhes não bafeja a tez ? . . Vês a rola sentiòa, entre as selvas que enfloram, Gemer õo seu amor a longa viuvez ?. • .
Busca em a natureza a õefinição recta
Oos mysterios õa viõa ; o fim, a aspiração ;
E se póões após õiz se n'alma õiscreta
Entram õo seu segreõo a justa comprehensão ? „.
Catharina Máxima õe Figueireõo Feio. A Ultima Estancia, Porto, pag. 52.
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Poetisas Portuguesas 95
D. FLORA CASTELLO BRANCO
D. Flora Castello Branco é filha õe D. Anna Rosa Cor- rêa e ôo Visconòe ôe São Miguel õe Seiõe — Nuno Cas- tello Branco — falecido em 23-1-1896. • . Neta mais velha õe Camillo Castello Branco e Õe D. An- na Placiôo, D. Flora Castello Branco que resiõiu, Õurante muito tempo em São Miguel õe Seiõe, era irmã õe Camillo, Nuno Placiõo", Rachel, Simão, Manoel e Estella ôe São Mi- guel õe Seiõe Castello Branco,
E' para lastima*r que os versos õesta Poetisa que chega- ram a ser compilaõos pelo õistincto e infatigável Camillia- nisía sr. Alberto Pimentel, não tenham siõo publicaôos em volume, até hoje.
MEU VIVER
Ai ! como é triste o viver De quem se sente captiva Como uma pomba feriõa Que na prisão vae morrer.
D'antes eu ia contente Colher boninas õa aurora Por esses praõoá em fora Banhaõos Õo sol poente,
Guiava- me a liberõaõe, BuscanÕo fructas e flores ; Não tinha meu peito amores, Desconhecia a Sauôaõe ! . .
Erguia os olhos aos Céos, Enlevaõa, mas um õia Levou-me toõa a alegria Aquelle supremo Aõeus !
96 Poetisas Porcur/i^'-'"^
Ai ! como é triste o viver De quem se sente captiva Como uma pomba feriòa Que na prisão vae morrer ! . . .
Flora Castello Branco. Occidente, n." 1006 õe 10-12-1906, pag. 267.
M1NH'ALMA
Chora, alma, que no pranto Da espr'ança meõra a flor ; Tem coragem, sae ovante D'esta mais que humana õor ! .
Vejo alem òe amargos õias Aurora santa raiar ; Espera, alma, não chores. Que a ventura ha õe tornar !
Flora õe Castello Branco. Occidente, n." 1004 Õe 20-1 1 - 1< pag. 250.
D. LEONOR DE FIGUEIREDO ABREU CASTELLO BRANCO
D. Leonor õe Figueireõo Abreu Castello Branco, nasc€ em Guiães.
Era filha õe D. Genoveva Moreira õe Azeveõo e õe ]os4 Maria õe Figueireõo Abreu Castello Branco e irmã õe D. Catharina Máxima õe Abreu Castello Branco, poetisa a què; se refere esta Anthologia, e tia Õa õistincta poetisa e es* criptora õe quem também se occupa este trabalho, D. Ma-.: ria Feio (D. Maria Figueireõo Feio Rebello Castello Branco)/
Parte õas poesias Õesta Senhora que õescenõe õe pes*
Poetisas Portuguesas 97
soas illuslres, e que suponho ser aparentada com Camillo Castello Branco, quanòo mais não seja, por parte ôo Dr. Francisco Correia Botelho, conservador em Vila Real (con- clusão a que teria o maior empenho em chegar, se as mi- nhas inúmeras e opostas ocupações, me não deixassem uma parcela minima õe tempo, para tratar ò'assumptos literá- rios), foi publicado em diversos jornaes e almanachs, pos- suindo sua sobrinha o manuscripto com as melhores pro- ôucções poéticas, de D. Leonor de Figueiredo Abreu Cas- tello Branco, as quaes um dia o publico terá ocasião de aoreciar.
LAURA
Deitada á beira do abysmo
Coitadinha, adormeceu.
Por cama tinha uma pedra,
Por docel o azul do ceu ;
Somente por cabeceira : I' Uns cabellos annelados
\ Côr da flor da canelleira,
Quasi nua, n'uns trapinhos Parte do corpo envolvido, Banhado o rosto de cera Talvez do pranto vertido. Mas que farta cabeceira Eram seus bastos cabellos Côr da flor da canelleira.
Pendido um braço no abysmo, O outro sobre um rochedo, Assim dormia serena A creancinha sem medo ; Só tendo por cabeceira Uns cabellos annelados Côr da flor da canelleira.
eonor de Figueiredo Abreu Castello Branco.
98 Poetisas Portuguesas
D. MARIA FIGUEIREDO FEIO REBELLO CASTELLO BRANCO
(d. MARIA feio)
D. Maria Figueireòo Feio Rebello Castello Branco nasceu em Guiães, alôeia Irasmontana.
E' filha õe D. Catharina Máxima Õe Figueiredo Abreu Castello Branco, poetisa õe talento, e ôe Sebastião Pereira Rebello Feio que era ôotaôo õe uma bonõaõe invulgar.
Os primeiros versos õe D. Maria Feio õatam õos onze anos. Foram publicados no Ahnanach de Lembranças.
Apesar õe tão precocemente ter principiaõo a revelar-si em D. Maria Feio a inclinação pelas letras, só muitos ano"^ Depois pouõe novamente entregar-se, á literatura e aos es- tuõos sociaes e humanitários, os quaes constituem hoí quasi o exclusivo fim^ôa sua viõa.
Tenõo siõo bastante infeliz e havenõo soíriõo muito, Maria Feio resolveu õeõicar-se, ôe alma e coração, aos vaà les õe que enferma a socieõaõe, e em especial á causal ôignificação õa mulher, que aõvoga com são critério.
São õe D. Maria Feio as seguintes palavras que ram a pag. Ill õo seu livro Alma de Mulher., publicaõo ai 1915:
«Que as nossas armas Õe combate sejam somente o sea timento que enternece, a õoçura que cativa, a graça qtt atrae, a bonõaõe que converte, que õomina e vence.»
Não sei que mais aõmirar, no seu livro Calvário de Mu Iher, obra em que, a traços firmes, faz na parte õolorosa, sua autobiografia, se a linguagem imparcial õe que, sempr usa, se as granões conclusões que lira n'esse livro que,n õizer õe Magalhães Lima, é uma tese õe psicologia e Õ sociologia muito importante, para a obra õa civilisação.
Tenõo liõo o Calvário de Mulher que é õeõicaõo a ]ea Finot e relacionatiõo iõeias, lembrei-me então õessa granZ
Poetisas Portuguesas 99
iveròaôe que Novicow òiz no seu livro Emancipação da Mu-
«CaÕa talento ôe mulher que não chega ao seu pleno de- sabrochar é um passo a menos para a obra õa civilisação.>
Como poòerão os talentos Desabrochar em Portugal, se o trabalho òas escriptoras é ainõa, em geral, peor remune- raõo que o õos escriptores ? !
D. Maria Fei escreve ha 8 anos, mas sem remuneração oficial ou particular !
Por este e outros factos, é que eu aòmiro a coragem ôalgumas õas nossas Intelectuaes que, sem incentivos, e atravez 5e mil òificuíòaões e inôiíerentismos, sulcam o re- volto mar õas letras.
A obra ôesta Poetisa, poôe ser encarada, sobre diversos aspectos. Como escriptora, é auctora õe :
Alma de Mulher, 1915, (notas Õe um õiario intimo õe re- ; flexões; Calvário de Mulher, 1915; Ferííat/e5, (assumptos ; sociaes e políticos) ; Corações Infantis ; Argumentos. Neste ■ folheto, ha valiosas cartas escriptas por D. Carolina Michae- lis õe Vasconcellos, D. Virgínia Õe Castro e Almeiõa, Teó- filo Draga, Justino õe Montalvão e Sousa Costa, õirigiõas a esta Senhora. I Como jornalista, tem colaborado na Capital, Primeiro de Janeiro, Lucta, Comercio do Porto, Vanguarda, Novidades, etc,
I Alem õe um belo livro õe versos em que trabalha e cujo titulo deve ser Sonho de Amor, tem para publicar as seguin- tes obras :
Arte e Artistas, (apreciações sobre arte e artistas em Por- tugal) ; A Belesa da Mulher, (estudo sob o ponto Õe vista imoral); Contos Verdadeiros ; Vo^es do Coração, La':; aros ie Magdalenas, (estuõos sobre o efeito õa avariose). i Como conferencista, também é apreciável a obra õesta i, Senhora.
100 Poetisas Portuguesas
FÉ (inédito)
Minha alma num anòor 5e sete estrelas, Subiu á torre iòeal Ôa sua Egreja. Talvez õa terra nenhuma alma a veja Mas ela vê do alto a toõas elas.
De lá, num explenõor ôe Eucarestia, Como arco iris canõiôo õe abril Envia a chuva proõiga e subtil Do amor que fulge em nimbos õe poesia.
E ás pobres almas que anõam lá na guerra Como anòorinhas loucas sem beiral Em vez òe peòir para a alma Ôa terra
Quizera ouvir òizer em communhão Que lhe inspirasse a Fé no mesmo Iõeal. Bemõita seja a tua õevoção.
Maria Feio.
A CANÇÃO DO MAR
(inédito)
o verõe mar ôas esperanças O mar verõe õa sauõaôe ! Vai e vem e torna a vir Traz-me a onõa õa bonõaõe.
Onõinas que sois o espelho Onõe se mira o sol-pôr Trazei-me Õe longes terras A Galera õo amor.
Poetisas Portuguesas 101
Galera ò'ouro e òe sonho Sempre a nascer e a morrer Como a luz õa lua cheia Que nasce para bem querer.
Quem me dera no mar alto Anbar sempre a navegar Levanôo á proa os meus sonhos Sempre, sempre, a timonar.
Iria aboròar õecerto Aquela ilha õe Amores Onõe a bqnõaõe poòesse Ser padroeira Ôe õores.
Remae, remae, sonhos belos Timoneiro anòa õepressa Que bem poòe vir a morte Antes que o òia anoiteça.
E emquanto sonhas no sonho De Amor e bem querer O mar se irá engalhanõo Em trovas òe aõormecer.
Maria Feio.
D. EMÍLIA AUGUSTA DE CASTILHO
D. Emilia Augusta òe Castilho era filha òe Alexanòre Ma- gno òe Castilho, bacharel formaòo em matemática, e òe sua mulher senhora francesa que òesposou, quanòo emigraòo constitucional.
D. Emilia Augusta òe Castilho nasceu em Lisboa, a 22 òe Setembro òe 1841.
102 Poetisas Portuguesas
Aòoraõa por seu talentoso pae, teve brilhante eòucação, e, ôesõe a meninice, tornou-se o encanto e aòmiração 5e sua familia e òos íntimos.
Escreveu, por brincaõeira, alguns versos infantis que, por vezes, foram publicados no Almanach de Lembranças fun- Õaõo por seu pae em 1850.
Era muito formosa, como mostra o belo retrato, a oleo, existente em casa õo eruòito investigador Sr. Visconde 5e Castilho, auctor õe varias obras ôe merecimento, entre as quaes mencionarei Lisboa Antiga, 8 volumes.
D. Emilia õe Castilho foi casada com seu primo co-irmão, Alexandre Magno de Castilho, capitão-íenente, engenheiro hydrografo, sócio da Academia Real das Sciencias de Lis- boa, auctor de importantes obras scientificas, e filho do Dr. José Feliciano de Castilho Barreto de Noronha, do Conse- lho de Sua Magestade Fidelíssima, etc.
Esta Senhora de cujo talento muito havia a esperar mor- reu na Figueira da Foz, a 20 de Maio de 1860, contando apenas 19 anos. Deixou uma filha que morreu sendo ainda criança.
VISÃO
Dormia ! O socego da noute reinava
Em torno de mim ! . . . Somente ao Altíssimo o mar elevava
Seu hymno sem fim I. . •
E eu vi uma fada, tão branca, tão bela • .
Ao leito chegar ; Na testa tão pura, cravada, uma estreita
Lhe vi scintillar. .
«f.evanta-te, disse com voz maviosa
Levanta-te e vem ! • . » Ergui- me, seguí-a, sahio graciosa
Sahi eu também.
Poetisas Portuguesas 103
Anòámos um pouco ; em frente a uma porta
A faòa parou ; Com um volver ô'olhos que inflamma e transporta
Que entrasse ordenou.
Em misero leito, finava, gemia.
Formosa mulher . . E não lhe acalmava mortal, agonia
Um ente sequer ! . .
Senti um thesouro surgir em meu peito,
De õó e õe amor ! . ■ Senti svmpathia, tristeza, respeito
Por tão viva òôr ! . -
A faòa arrancou-me ôe scena tão triste ;
E olhanõo p'ra mim, «Não é ainôa naõa o quaòro que visife,
Ha muitos assim !»
E fomos seguinòo mil ruas escuras
Da lua ao alvor ; Mostrou-me em silencio cruéis Desventuras
E abysmos ôe ôôr !
Mostrou-me choupanas, anõrajos, ôeshonra,
Miséria, affiicção !. . - Velhinhos sem cama, mulheres sem honra.
Crianças sem pão I
Exhausta e aflicta, me afasto e pergunto
Com trémula voz : <Quem sois, 5e tão raras bellezas conjuncto,
Dizei, quem sois vós ?
«Eu sou a Cariõaòe, me õiz ôôcemente ;
E quiz-te mostrar Que inúmeras õôres, com mão provi&ente.
Se poõem curar.
f:
104 Poetisas Portuguesas
Agora que as viste, minora a sentença
Lançaõa por Deus ! Do bem que fizeres terás recompensa,
Na terra e nos ceus.>
Sumio-se, e sosinha me achei, no meu leito !
Foi sonho ?. . . Oh ! que não. Tarefa tão santa gostosa te acceito,
Brilhante visão !
Emilia Augusta ôe Castilho. Almanach das Senhoras, 1859, pag. 382 e 383.
D. CACILDA PINTO COELHO DE CASTRO
Desòe criança, D. Cacilõa ôe Castro revela gosto e pro- pensão pelo estuõo e pelas letras.
Ainòa òe saias curtas — e na iôàõe em que o iôeal é brincar e o aprenòer uma maçada — já D. Cacilòa ôe Cas- tro lia e estudava, sem òescanso.
Apesar òa sua grande aplicação ao estudo, e, talvez, por-^^ isso mesmo, poucos professores a satisfaziam.
Preferia estudar sem auxilio, fa^endo-o com orientação própria. ,^
Tudo quanto sabe deve-o, pois, a si mesma e á sua inte- ,;|; ligencia. :í|
Bem nova, contando apenas 15 anos de idade, publicou^ o seu primeiro livro Silhuetas, volume de contos que se^ acha exgotado e que a critica recebeu com louvores e jus- tiça.
Sempre alheada da politica, D. Cacilda de Castro tem es- cripto e colaborado em quasi todos os jornaes, revistas e^ almanachs que se tem publicado em Porti^al, desde 09|
Poetisas Portuguesas 105
mais obscuros, até os mais conheciòos como o Portugal» jornal em que não colaboravam senhoras.
Em Julho òe 1911, foi representada no Theat}^o da IS aí u- resa, na Estrella, com geral agraõo e sucesso, uma peça em
I acto, Merlim e Viviana, que esta Senhora escreveu em
II bias, a peòiõo õe Aõelina Abranches.
Esta Ôelicaòa peça teve não só belo õesempenho, como luxuoso guaròa-roupa.
Um ano Õepois, D. Cacilòa õe Castro escreveu uma outra peça teatral, Òe Grano Guignol, intitulada Esta Mascara que cedeu a Alexandre de Azevedo que a fez representar no Iheatro de Sá da Bandeira, do Porto, onde foi rece- bida com as mais carinhosas frases, pela critica portuen- se.
Entre essas apreciações destacarei, a de Simões Coelho, o critico do jornal A Montanha.
Nesse mesmo ano, isto é em 1912, a auctora de Merlim e Viviana, escreveu expressamente para a festa artística da actriz Aurora Abranches, uma outra mimosa peça, Manhã de Neve que, como as anteriores, obteve grande êxito.
A' excepção de Esta Mascara, todas as peças citadas, es- tão publicadas.
A D. Cacilda de Castro cabe a satisfação de ter sido quem primeiro fez ouvir e representar no teatro portuguez, o verso natural.
Apesar do bom acolhimento que sempre tem sido dispen- sado aos trabalhos desta Senhora, D. Cacilda de Castro ainda se não animou a dar á publicidade novos lavores li- terários começados.
NAS ruínas do convento DE ALMOSTER
Pesado e firme o alpendre do convento Oppõe ao tempo, o vulto denegrido. Dentro do velho claustro somnolento Tem cada altar um écho dolorido.
106 Poetisas Portuguesas
Pela nave ôesòobra-se um lamento ; E na estante õo cravo carcomiõo Repousa ainòa, o ultimo fragmento De um cântico nas trevas õiluibo . •
Rumoreja na cerca o arvoreôo, Esparsas orações quase em segreòo . E por toõo o mosteiro a Õesabar
Passam noviças num passinho breve, Que òe ar contricto e ôe cabeça leve, As sombras hoje vem corporisar.
Cacilõa õe Castro. Jornal da Mulher, Lisboa, I ano, n." II òe 5 ôe õezembro ôe 1910, pag. 93.
O GAROTO DOS OLHOS AZUES
E' vel-o sempre no Chiaòo
Ôe perna ao léo, Ôe pé ôescalço,
toôo contente e esfarrapaôo !
No nosso encalço
peôinôo esmola, ,
com o ar feliz ôe quem a ôá •
Coitaôito !
Vivo e saltitante, lembra um passarito
fugiôo ôa gaiola !
Cinco annos terá . . .
não mais ôecerto ;
e assim pequeno e tão esperto,
a gente tem
ôe parar
a olhal-o bem.
Poetisas Portuguesas 107
E vê-lhe na cara suja, a protestar
immaculaôos :
os linòos olhos azues,
muito azues. . . e sombreaõos !
De um azul que me recorõa o azul ôos olhos teus quasi innocentes também quanôo se fixam nos meus.
E contente,
òou-lhe a esmola
que elle espera impaciente -
receanõo que eu lhe fuja !
— Porque te evoco a ti, na graça õ'aquellè olhar, e no contraste que ri n'aquella carita suja . •
Cacilòa òe Castro. Novidades (jornal).
SUPOSIÇÃO
Porque as õuviôas me affligem
e receio . .
E não creio
«o que os teus olhos me òizem
Se o que õizes não consigo
entender. . .
e te òigo
o que não quero òizer ;
se estremeço
quanòo te vejo chegar !
E entristeço
por te não encontrar .
108 Poetisas Portaauesas
E também : — e isto é o peior — Porque te encontro, melhor que ninguém !
Porque eu gosto òe te ouvir se me falias . . E me fico a sorrir se te calas :
Ninguém vês
que em tão pouco veja amor ! Mas tu és capaz õe o supor. . e eu talvez. . .
Cacilôa õe Castro.
CÉLIA ROMA
(D. ALICE LAURENCE ORAM)
Célia Roma é o anagrama com que D. Alice Laurenc#i Oram, a talentosa jornalista e poetisa que nasceu em Lis-, boa, tem firmaòo as suas poesias e alguns òos seus tra- balhos literários.
Aos òes anos õe iõaõe, f unõou no seu colégio Õe Campo- liõe, um jornalzinho no qual segunõo a própria expressão õesta Senhora, publicava verços erraõos e contos invero- simeis.
A mociõaõe Õe D. Alice Oram foi passaõa num meio culto. Em sua casa, em Cintra, õurante os meses õe verão e por vezes nos õe inverno, reunia-se quasi tcõas as noi- tes um grupo õe escriptores e poetas ilustres ; e foi ouvin- õo-os e aõmiranõo-06 — <a um canto õa sala, silenciosa e esqueciõa» — que D. Alice Oram apreõeu a pensar e eõu- cou o seu espirito.
Poetisas Portuguesas 109
Entre muitos outros nomes Õe pessoas notáveis que se reunião em sua casa, citarei os õe Eça Ôe Queiroz, Rama- lho Ortigão, D. João ôa Camará, Silva Pinto, Latino Coe- lho, Thomaz ôe Carvalho, Alberto Braga e Bernardo Pin- ôela.
Desses saudosos tempos õa sua infância, conserva ainòa D. Alice Oram, como preciosa relíquia, um òos seus cader- nos òe colegial, no qual existem uns chistosos bouts rimes, escriptos pelo punho Ôe Eça ôe Queiroz, Alberto Braga e ôe ]aime Batalha Reis, nosso Ministro na Rússia.
E', principalmente, como jornalista que D. Alice Oram é conheciôa.
Tem a seu cargo, actualmente, alem ôa informação tele- ! gráfica e por carta, para quatro jornaes inglezes e a repre- , sentação em Portugal, ôo Associeted Press of America, a reportagem para o Dailly Mail, ôe LonÔres, que ôeviôo á • granôe activiôaôe e exforço ôe D. Alice Oram, foi o pri- ■ meiro jornal estrangeiro que ôeu a noticia Ôe ter rebentaôo a Revolução 5 Ôe Outubro.
O que se passou em Portugal, nesses ôias sangrentos ôe Outubro ôe 1910, noticiou-o em longas columnas, e telegra- mas, o citaôo jornal lonôrino que, reconheciôo — pela for- ma rigorosa ôas informações ôa sua corresponôente e pelo moôo corajoso como se portou, nesses Ôias ôe revolução, D. Alice Oram, que para colher entre a aluvião ôe boatos contraôictorios, fieis e históricos pormenores, não ôuviôou atravessar, entre fogo, os pontos e ruas sitiaôos, — en- viou-lhe, como premio, ôe seus bons serviços um cheque ôe 100 libras, acompanhaôo ôe honrosas referencias feitas á sua pessoa.
Alem ôos referiôos jornaes, foi também corresponôente Ôo Echo de Paris e ôe La Vie Finandère de Paris, missão que ôeclinou, visto não lhe chegar o tempo para tantos tra- balhos.
Como traôuctora, tem D. Alice Oram o seu nome ligaôo ás versões :
110 PoetÍBas Portuguesas
Oliver Twist, òe Dickens, varias õe William Dlack e Aca- ôon Hill e Contos õe Gabriel õ'Anunzio ; alem õas citaôas, traòuziu mais alguns tomos Ôa colecção òe literatura poli- cial, õe Conen Doyle que tanta voga obteve entre nós, no- velas que também tiveram por Iraõuctores Augusto Gil, Lo- pes õe Menõonça, Manoel õe Maceõo e Christovam Aires, (filho).
No antigo teatro õe D. Amélia representou-se, em 1905, peça Clairière Õe Donnay e Descavel igualmente traõuzi? por D. Alice Oram.
A varias outras emprezas teatraes estão entregues veí soes õe peças õe Pinero, Suõerman, e õe Jules RenarÕ, fei«J tas por Célia Roma. |
Como poetisa e contista, a obra literária õesta Senhorá| anõa espalhaõa por varias revislas Õ'arte e jornaes. Uma| õe suas poesias publicaõa na Crónica mereceu õe Gomes^ Leal que não conhecia, a esse tempo, sua auctora, as maií calorosas apreciações, achanõo o auctor õas Claridades do} Sul, que quem tão bem fazia versos, não Õevia escrever^ prosa.
NUVENS
Do mar as nuvens leves vão subinòo
Em renõilhaõo veu, Brancas teias õe aranha, revestinõo
O ciaro azul õo ceu.
Depois, impelle-as rapiõas o vento,
Correm sem õescançar. Tão altas quasi como o pensamento
De quem vive a sonhar.
Alegres sonhos meus, haveis passaõo
No ceu õa minha viõa. . . Assim as nuvens õo azul, em vôo ousaõo,
Vão lambem õe fugiõa.
Poetisas Portuguesas Hl
Errantes peregrinas ôos espaços,
A' luz òo fim òo õia, Pintam na tela azul, a largos traços,
QuaÔros õe phantasia ;
Castellos negros, rochas escarpadas,
Sobre tranquillos mares, Com tintas õas auroras irisaõas
Das regiões polares • . .
E vejo n'essa vaga nebulosa,
Um munôo povoaôo Peias òivinas sombras côr òe rosa
Dos sonhos òo passaôo.
No anceio òe alcançal-os, n'um momento
De um munòo ao outro passo, Pela escaòa fugaz òo pensamento
Subo atravez òo espaço.
E minha alma inconstante e fugiòia,
Veloz como Atalanta, Vae azul fora em busca òa alegria
E a par òas nuvens canta.
Sem ver que o corpo preso á terra chora,
E geme e òesfallece, Nem que a raòiante luz ò'aquella aurora
Breve òesapparece.
Célia Roma.
112 Poetisas Portuguesas
D. LAURA DA FONSECA CHAVES
D. Laura õa Fonseca Chaves nasceu em Lisboa. E' filha] òo Dr. João Henrique Dias Chaves, já falecido, e ôe D. Pa-| trocinia ôa Fonseca Chaves.
D. Laura Chaves que é auctora õe primorosos versos q\ encantam pela sua naturaliôaõe, graça e sentimento, como^' se verá pelas poesias que transcrevo, fa-los sem pretenção, . por mero passatempo. Só muito instaòa, aceôeu a sererari publicaòos no Brasil e '^Portugal, Almanach das Senhoras^ e no Jornal da Mulher onõe as suas proòuções poeticasj teem siôo muito bem acolhidas. <|
Alem õessas poesias e õe muitas outras que estão ine^^l õitas, esta Senhora é auctora òe òiversas peças teatraes»^ em prosa e verso, que foram representadas por amado-;?,' res. /
Nas suas poesias que abordam assumptos muito diferen-, tes e nos seus restantes trabalhos literários, predomina a| nota satírica, nota que esta Poetisa tem cultivado com exito.|
D. Laura Chaves que pertence ao grupo das jovens Poe- tisas Portugue;?as que figuram nesta Antologia, é, pelos seus merecimentos e talento, uma das mais lídimas espe- ranças da Literatura Portuguesa.
raciocínio de criança
A' Helena
— O' mãesinha, ouve lá, explica-me isto, sim? Dizem que tudo morre, e custa-me a entender. Pois o paesinho e tu um dia hão de morrer E tudo quanto existe ha de acabar assim ? —
— Dizem que os mortos vão — e eu acho isto esquisito, Mettidos em caixões. Que lindos caixõesinhos Devem levar p'rá terra as flor's e os passarinhos ! Quando eu morrer também irei assim bonito ? —
Poetisas Portuguesas 113
- Que patetinha és, sempre tens caôa iõeia !
A morte naõa poupa, é má, é muito feia !
Lhe respondeu a mãe n'um tom grave e profundo.
O pequeno ficou apreensivo, muõo,
Depois õisse a sorrir : — Se morre tuôo, tuõo.
Mas que granòe caixão ha õe levar o munôo !
Laura Chaves. Jornal da Mulher, n.° 103 õe 30-11-1915, |5.* ano, pag. 1553.
SONETO
\o sair òa taberna, aos borõos pela rua
■/ae caminhando incerto o pobre borrachão. ; N"uma voz avinhada embirra com a lua 1^^'or pôr sombras na terra e confundir-Ihe o chão,
I Jisto tropeça e cae : p'rali fica deitado ^) corpo n'um novelo — um horror que faz dó ! |'!ão consintas ó Deus, que um ser por ti creado |ienha por leito a rua^ e por coberta o põ !
I ão vês que o infeliz não tem pão para dar |os filhos e á mulher ! Se bebe é p'ra olvidar
I fome que os tortura e os vae ceifando a eito !
I I que pregaste, Deus, na terra a egualdade ^,\ como o rico cumpre essa tua vontade ! l3ísfaz o mundo, vá ! que está muito mal feito !
? 'Laura Chaves. Jornal da Mulher, 6." ano, n.° 115. Lisboa, íí 11-1916, pag. 1818.
114 Poetisas Portuguesas
^
À
O AMOR E O TEMPO
Voava pelo espaço o Amor alegremente Pensanõo em fazer mal á pobre humaniôaòe, Quatiòo a tolher-Ihe o vôo, apar'ceu ôe repente O tempo, que a sorrir o olhava com bonõaõe.
Ao ver-se preso assim, Cupiòo Descontente Murmurou n'um òesõem replecto õe malbaõe <Afasta-te Ò'aqui, velho tonto e ôemente E òeixa-me passar que eu quero a liberõaòe !»
«Ah, não me tens respeito» exclamou o tempo iraòo
«Pois eu para evitar que sejas malcreaôo
Hei òe seguir-te sempre onôe quer que tu vás I
E õesõe então o Amor não anõa satisfeito, Não leva naôa ao fim, naôa lhe sae com geito, Porque o tempo õestroe tuôo quanto elle faz I
Laura Chaves. Jornal da SMulher, n." 110 ôe 30- 6-916,! ano. pag. 1710.
:t
A TEMPO
O baile ia acabar. A orquestra executava N'um murmúrio òe sonho uma valsa onòolante Eu, triste no seu hombro a cabeça pousava Deixanõo-me levar semi-morta, anelante.
N'isto ele, aproveitando esse meu òevaneio, Chegou-me muito a si ôizenõo com aròôr : «Deixa o teu coração palpitar sem receio «Porque eu ha muito sei que tu me tens amor !»
Poetisas Portuguesas 115
Ao ver que me arrancava o meu segreõo assim
Tive um meòo cruel òe não ter mão em mim,
Mas não qu'ren()o mostrar-lhe o meu granòe embaraço
Sustentei sem temer o seu olhar arõente E õisse-lhe a sorrir, muito serenamente : <Não fale mais, senão perõemos o compasso!
Laura Chaves. Jornal da Mulher, 5° ano, n." 102, Lisboa. 30-10-1915.
D. BRANCA DE GONTA COLAÇO
D. Branca òe Gonta Colaço, a inspirada e conheciôissima Poetisa Portuguesa, nasceu em Lisboa. Filha õo granòe poeta Thomaz Ribeiro, D. Branca õe Gonta Colaço que é casada com o notável artista ]orge Colaço, tem sabiõo continuar nobremente as gloriosas tradições literárias òe seu pae. Esta Poetisa é auctora òos seguintes livros : Matinas, 1907, (exgotaòo) ; Canções do meio dia, 19Í2 ; .Poetas d' Honrem, 1915.
Como conferencista, a obra Òe D. Branca òe Gonta Co- flaço é também muito apreciada.
Poetas d'Eonteni, assim se intitula uma òe suas confe-
Cfencias, que por duas vezes fez nas elegantes salas da
lUga Naval Portuguesa, òe Lisboa, ante uma selecta assis-
(lencia.
Dessa conferencia, diz no Jornal da Mulher (n." 84 de
5 de ]unho de 1914), o sr. António Batalha Reis, o dis-
; inctissimo oenologo e escriptor que tão considerado é
)ela sua competência e saber :
«Tornar saliente a religiosa unção, com que ouvimos a
onferente recitar algumas producções dos Poetas d'Hon-
;m — entre as quaes sobresahiu, com inconfundível bri-
10, a Borboleta de Thomaz Ribeiro, é ainda uma veròaòe
116 Poetisas Portuguesas
bem veròaôeira. Mas tuõo isto, que quer aparentar alguma couza, — não é naòa, por fim òe contas ! E não é naòa porque, em tuõo que se poòesse òizer, — rezultaria sem^ pre a irremediável falta õe sublime enlevo que imprimit naturalmente, nos ouvintes, — a suave, carinhosa e insi* nuante voz òe Branca òe Gonla que chega aos nossos ou- viòos como um canto celestial, — que nos ôelicia, — en- canta, — prenòe e nos conòuz, branòamente, a um veròa- òeiro extasis, completamente òivino e único!»
Esta apreciaòa conferencia foi mais taròe publicaòa ent' volume, eòição feita a peòiòo e a expensas òo ilustre Câ» monianista e Acaòemico Dr. Carvalho Monteiro.
Deòicaòo a uma obra òe cariòaòe, a eòição òos Poet0 d Hontem que consta òe 5^5 exemplares numerados^ e quê não chegou a entrar no mercaòo, exgotou-se em poucos Òias.
Em 1916, realisou esta insigne Poetisa, na mesma Liga Naval òe Lisboa, agremiação onòe se teem feito ouvir, ein belas conferencias, entre outros, Fernanòo òe Sousa, Cu- nha e Costa, Anselmo Vieira, Alfreòo Pimenta, Pereira ôe Matos, Gomes Mota, Freitas Branco, Hipólito Raposo, An- tónio SarÒinha, etc, etc. — nova e brilhante conferencia que mais taròe repetiu no Porto e em Coimbra e cujo titulo erai; o amor da Pátria na obra de Thoma^ Ribeiro.
O ultimo trabalho literário òe D. Branca òe Gonta C0* laço foi publicaõo em 1917. Destinaòo a socorrer uma fa- mília necessitaòa, intitula-se : A' margem das Chronicas.
NIHIL!
Morrer!
Oh, quem nos òéra !
Achar, na morte, a paz, que sobre a terra em vão buscamos ! Chegar òepressa ao porto, onòe esperamos esquecer os balòões Òa nossa sorte '
I-oetisas Portuguesas 117
Morrer i
Mas, — ao morrer, para onòe vamos ? (Ha lá ninguém que a Ôuviba supporte !) Na viõa, ao menos, qualquer sonho é norte. - — e ha sempre uma illusão que nós amámos !
Pobre Õo nosso peito exhausto, enfermo, que sangra até por ver chegáõo o termo ôa pena que na terra tem cumpriòo !
Valera talvez mais não ter esperanças ! Viver, na inconsciência Òas crianças ...
Valera talvez mais não ter nasciòo ! . ■
Branca õe Gonta Colaço. Matinas, Lisboa, 1907, pag. 59
e 60.
PRELUDIO
Passei, olhou. . . - não succeõeu mais naòa. Taròe ao serão, no familiar cantinho, pensei ôe novo, um pouco interessada, n'aquelle olhar, seguinòo o meu caminho !
Ao outro òia, eu estava ôebruçaõa a ver o azul õo már sereno e liso- •
— passou ! — Olhei- • . não succeõeu mais naõa
— mas õe então, na minh'alma alvoraçaõa, porque anõa o choro a batalhar com o riso ? !
Branca õe Gonta Colaço. Matinas, pag. 84.
118 Poetisas Portuguesas
MEU AMOR !
II
Negar-te um beijo a ti, é significativo Õ'uma affoiteza enorme, ou õ'um mortal receio ? ! E* fingir que õesprezo aquillo porque anceio ! ■ E' quasi recusar- me aquillo porque vivo !
Não é coragem, não ! — Afflige-me este enleio que sinto ao pé òe ti, não sei porque motivo Quero òizer-te sim — o õôce lenitivo, e sempre vem o não metter-se ôe permeio !
Longe, faço a mim mesma uma promessa aròente õe unir a minha bôcca á tua, brandamente, n'um beijo que afinal não é crime nenhum!
Mas vejo-te, e não sei que tenho, mal te vejo !
Nem sei se é valentia o recusar-te um beijo
se um granõe mêòo, amor de não te õar só um . .
Branca òe Gonta Colaço. Matinas, pag. 51 e 52.
HISTORIA SILENCIOSA
Do tempo pelo rio crystalino,
na barquinha veloz òo seu ôestino
elle ia a ôeslisar. Viu-a na margem ao passar, e ao vê-la ambicionou a companhia ò'ella. •
que não se fez rogar !
E proseguiram juntos a ôesciòa òa placiõa corrente õ'uma viôa ôe mutuo bem querer ;
Poetisas Portuguesas 119
sorrinôo alegres aos clarões õa aurora entristecenõo levemente, á hora triste, ôo entaròecer . .
Mal falaram. As almas que se aôoram, é ô'olhar para olhar que se namoram
n'um extasis sem fim ! Um ôesejo reflecte outro õesejo, ôepois os lábios unem-se n'um beijo .
e vão sonhanõo assim ! • •
Quando o fim ôa viagem alcançaram, á mesma sombra a repousar ficaram
na mesma primavera • . E entraram a sorrir no Esquecimento ; que é o Qranõe Sahará ôo firmamento
onòe o silencio espera .
Branca ôe Gonta Colaço. Canções do Meio dia, Lisboa, 1912, pag. 65 a 68.
PEDINDO ESMOLA
Uma, Esmolinha, sim ?
Eu sei que vos consola õar pão e lume a um lar onôe a miséria entrou ! Por isso vim confiaôa a vós, peòir esmola, E alinhavei sorrinôo a ephemera sacola ô'uns versos que choranôo o coração ôictou.
Branca ôe Gonta Colaço. A' Margem das Chronicas, Lisboa, 1917, pag. 3.
120 Poetisas Portuguesas
D. LIA DE MAGALHÃES COLLAÇO
D, Lia õe Magalhães Collaço nasceu em Lisboa. E' filha òe Jerónimo õe Magalhães Collaço, filho òos Conôes ôe Cò- õeixa.
Esta Senhora que é mãe òa poetisa D. Anna Achaioli, ca- sou muito nova, tenõo feito, em solteira, versos cheios òe simpliciõaôe e sentimento.
Depois Òe casaõa, porem, fizeram-lhe os extremos ma- ternaes cortar as azas õa sua granõe imaginação, trocanôo as suas inspirações poéticas pelos òeveres ôe mãe cari- nhosa.
Seu pai, bacharel em õireito pela Universiôaôe ôe Coim- bra resiôiu çi maior parte ôa sua viôa em Pariz onõe con- quistou uma posição ô'elite no munôo aristocrático.
Dotaôo ôe um espirito vivo, subtil e acentuaôamente sar- cástico, foi um ôos mais aprimoraôos rajffinés ôa elegância parisiense, e poôe òizer-se sem perigo ô'errar que foi tão aôoraôo pelas mulheres como temiõo pelos homens.
Teve sete Ôuelos em que ficou venceôor e a sua atituôe cavalheiresca fez com que figurasse com elogio no livroí Les hommes d'épée. I
A Jerónimo Collaço também se referiu Ramalho Ortigão,! nas Farpas. V.
Sua filha D. Lia heròou ôele por completo a figura e al| aguôeza õe espirito, substituinôo apenas a cáustica irónica ^ paterna por um charme especial que faz ôesta Senhora uma ôama ôe trato muito interessante.
OS TEUS OLHOS (inédito)
N'esses teus olhos, Maria, Oceanos ôe luz pura, Eu vejo tanta canõura Tanta luz, que a luz ôo ôia.
Poetisas Portuguesas 121
Não tem aquella magia, Não tem aquella òoçura. Não tem o amor, a branòura, D'esses teus olhos Maria.
Lia Magalhães Collaço.
«
SEM TITULO
(inédito)
No álbum de António Teixeira Carneiro
Não julgues que m'importa que o avarento Tenha a seu laõo mil outeiros õ'oiro, Não penses que eu espero outro thesoiro, Sem ser o mergulhado em crú tormento.
Não julgues que a beleza me fascina, Não creias que m'importa a fiòalguia ! Aòmiro Joanna ò'Arc, essa heroina, De patriotismo e nobre galhardia.
Não aprecio o Rei pelo seu veto, Enternece-me a luz õo meu affecto : Inebria-me um granõe sentimento,
-ftlegra-me òo campo a soliòão,
E assim seguinõo sempre o coração,
Maravilham-me as chammas õo talento !
Lia Magalhães Collaço.
122 Poetisas Portuguesas
D. MARIA DA CONCEIÇÃO PEREIRA
DA CUNHA j
D. Maria Õa Conceição Pereira ôa Cunha nasceu em Lis- boa em 15 õe Março ôe 1893, e faleceu contanòo apenas 17 anos, em 5 òe Maio ôe 1910, õeixanòo imersos na maior ôôr — seus pães D, Maria José õe Pina Manique Pereira Ôa Cunha, trineta õo celebre Intendente Pina Manique, e o sr. Peõro ]osé õa Cunha, oficial Õe Engenharia e Reitor' ôa Universiõaôe Õe Lisboa. ?
D. Maria ôa Conceição Pereira ôa Cunha que era neta òo i^ antigo õirector Õo Portugal Velho e ôa Nação, o jornalista Au- gusto Porfírio õe Carvalho Pereira, começou por instincto, visto nunca ter tiôo professor ôe poética, a fazer versos ões- õe os 10 anos, como mostra o volume õe suas poesias pu- blicaõo postumamente pelas suas amigas D. Laura Chaves e D. Maria Canôiõa Parreira, Poetisas a que igualmente se refere este livro.
Alem õesses versos, D. Maria õa Conceição Pereira õa Cunha fez muitos outros, que rasgava õepois ôe os haver recitaôo em familia. Outro tanto suceõeu com relação a al- gumas ôas varias comeôias que escreveu e que foram re# presentaôas em teatros particulares. f
Dotaõa ôe granõe habiliõaôe para o teatro, qualiõaõe esta que revelou, õesôe bem nova, no Colégio de São l.ui^, on- õe foi eôucaõa e se familiarisou com a lingua franceza, o que lhe permitia versejar n'essa lingua com granõe facili- Ôaõe, como se constata ôe algumas õe suas proõuções poé- ticas, ~ foi D. Maria õa Conceição Pereira õa Cunha uma ingénua ôe qualiôaões raríssimas como õemonstrou, na peça õe ]ulio Dantas — Rosas de todo o ano, e noutras pe- quenas comeôias que representou no mencionaôo Colégio, e fora ôele.
Poetisas Portuguesas 123
A MORTE DA MICAS
A morte entrara aii ! No quarto a luz õo ôia Brilhava frouxamente ! Ella, que agonisava N'um sesto convulsivo a roupa arrepanhava Como a querer reter a viõa que fugia . .
Depois p*ra nós volveu o amorteciòo olhar !
A custo Descerrou a bocca õesmaiaôa
E òisse n'uma voz já um pouco velaòa :
«Que mal fiz eu a Deus para assim me abanôonar?»
Mas a Virgem que é mãe, ouvinòo este lamento
Confragiôa ôe õôr, á terra então òesceu
A trazer-lhe na morte o alivio ao seu tormento !
Mais tarõe houve quem visse illuminar-se o espaço Era Nossa Senhora a subir para o céo Levanõo a alma õ'ella occulta no regaço. .
Laura Chaves.
QUADRAS
Mal sabes tu a razão Porque é que a estrella caõente Apenas surge no ceu Se some tão òe repente
E' que eu pergunto-lhe sempre Se anõo no teu coração ? ! E ella então foge depressa Com ôó õe õizer que não ! -
Ave-Marias õão Õores Paòre- Nossos alegrias Que extranho rosário o meu Só feito õ'Aves-Marias. .
Maria ôa Conceição Pereira òa Cunha.
124 Poetisas Portuguesas
DES VERS FAITS A MON CCEUR!
Mon coeur était petit comme les jeunes roses Un peu timiôe et tenõre ainsi que les violletes II repliait en lui ões tenòresses secrètes Sans les òire, mon coeur, savalt òe õouces choses.
Alors, il a senti le chaste et òoux besoin
De verser sa tenòresse au fonò õ'un autre coeur ;
Et friieuK et tremblant ò'éspérance et õe peur
Mon cceur alia frapper à la porte õu tien.
11 le sentit três bon, aròent et généreux
Mais une voix brutale a retenti souõain : =
«)e ne veux pas Õe vous, partez, mon cceur est plein !»
Et mon cceur répartit, òéçu et malheureux.
Mais aujourò'hui mon coeur frappera õe nouveau Et si tu me reõis, «mon coeur est plein, partez», Au lieu Ôe revenir enõolori, blessé, Mon coeur prenòra le tien ôans un suprême assaut !>
II entrera surnois comme font les voieurs Et saura lui chanter õe si pressantes choses Versera tant õ*amour, Ò'éspérance et ôe roses
Qu' un jour il será seul à vivre õans tou cceur ! Maria õa Conceição Pereira õa Cunha. Janeiro õe 1910.
Poetisas Portuguesas 125
D. MARIA DA CUNHA
D. Maria õa Cunha era portuguesa, não obstante ser fi- lha òe uma senhora brazileira e õe Francisco Zorro, ôe na- cionaliõaòe hespanhola.
Desôe muito nova, esta Senhora que nunca ligou impor- tância ás suas poesias, versejava.
Tenõo siôo um Ôia entregues, por um seu tio, ao Dr. Can- ôiõo õe Figueireõo, (Viõe Diário de Noticias õe 25 õe Ja- neiro Õe 1917), as suas composições poéticas, as quaes o notável mestre õa língua portuguesa mostrou e õeu a apre- ciar ao Conõe Õe Monsaraz e ao Dr. }ulio Dantas, resultou Ôesse facto a publicação õo primeiro livro õe versos õe D. "íaria õa Cunha.
Trindades se chama essa encantaõora e valiosa obra que conta 2 eõições. Alem õe soberbas poesias, regista os mais calorosos elogios feitos pelo auctor õa Musa Aíemtejana e
{ Ceia dos Cardeaes, como se verá õa transcripção que
iSSO a fazer. No citaõo Diário de Noticias, õiz o õr. Can-
5o õe Figueireõo.
«Quanõo porem tive lazeres para a leitura õaqueles versos, a minha surpreza foi enorme : estava ali inõiscuti- velmente um altíssimo talento feminino, realçaõo por vasta cultura literária e possuiõor õa mais perfeita técnica õo verso ; e, com receio õe que a auctora tomasse o meu con- ceito na conta õas amabiliõaões vulgares, que aos homens òevem as mulheres formosas e õe talento como ela, õei conta õa minha surpreza a õuas auctoriõaòes literárias, que não conheciam a poetisa, e que absolutamente confirmaram elevaõo conceito que os versos me sugeriam : ]ulio Dan- 3 e o Conõe õe Monsaraz.»
«Os õois laureaõos poetas õeram-me por escripto o seu .recer, com que se prefaciou o livro Trindades » «Monsaraz achou brilhantíssima a estreia, pela mais com-
126 Poetisas Portuguesas
pleta correcção métrica, ampla fantasia, rica Õe côr e so| noriôaôe, traço firme e tintas preciosas >
«Júlio Dantas escreveu que as Trindades revelaram um talento poético õe primeira oròem, pois tuòo ha nelas : es- pontanieõaôe, sentimento musical, plástica òo verso, técnica perfeita, conhecimento ôe língua, movimento, cor. . »
«Ha até sonetos, — õiz Júlio Dantas, — que poõem até consiõerar-se obras primas. >
Quanto havia ainòa a esperar òo talento ôe D. Maria ôa Cunha, se a morte a não houvesse arrebatado, em plena mociôaòe, õo numero õos vivos ! Longe ôa sua pátria, ôa qual ôesalentos, ôesgostos, e talvez, até, injustiças, a afas- taram, D. Maria ôa Lunha, faleceu repentinamente em S. Paulo (onôe lhe tinha siôo garantiôa, por varias pessoas importantes, uma colocação vantajosíssima no magistério), a 10 ôe Janeiro ôe 1917.
Com a sua morte fica ineôito e incompleto, segunôo penso, O Livro da Noite, cujo prefacio em belos alexanôri-" nos fez successo no Brazil, onôe seus versos são igual- .„ mente muito apreciaôos. *
Na Época, ôo Rio ôe Janeiro, um ôos principaes jornaes brazileiros, ôo qual é corresponôentee enviaôo especial em Lisboa a ôistincta escriptora e jornalista D. Virgínia Quaresma que também faz parte ôa reôacção ôe A Capitaly Ôe Lisboa, publicou D. Maria ôa Cunha algumas ôe suas aprecíaôissimas poesias, que não figuram nas IrindadeSyí^ taes como : -^
(l4 Fiandeira (muito elogiaôa pelos críticos), e Salomé, ^ 3 sonetos feitos e inspíraôos pela musica Ôe Strauss. '
Não é só como poetisa que é notável a obra õe D. Maria ôa Cunha.
Como jornalista, escreveu, a peôiõo õe vários reôactores ôe jornaes brazileiros, algumas crónicas.
Foi, ainôa, uma conferencista brilhante, como atestam as suas conferencias feitas no Rio Ôe Janeiro : ^i
Poetisas Portuguesas 127
Como cantam os velhos povos da Europa sentados á som- bra das Lendas e A Itália Artística, que Alberto ôe Oliveira classificou das mais lindas e das mais bem feitas de quan- tas, portugueses teem feito no Brai^iL
PROÉMIO
Ao meu livro singelo e òesprenòiõo, Cheio õe aspirações e õe sauõaões, Livro õe quem viveu sem ter vivido, Diz-lhe bem este nome õe <Trinõaões>.
Branõo cahir Õa noite, hora õe mágoas! Penumbras que se estenõem lentamente. Vozes tristes õas plantas e õas aguas. Sonhos õispersos pelo ar Õormente,
Aves cansaõas procuranõo o õono, Ovelhas loiras quasi ao abanõono. Visões õe paz, õe amor que não existe,
Lucilações õa estreita vespertina, Rumorejar õe ninhos em surõina. . . Eis o meu livro, simples, vago e triste,
Maria õa Cunha. Trindades, Lisboa, 1909, pag. 9 e 10.
CROMO
Passa na rua, õonairosa e esperta, Varinazinha, posta a mão na anca ; Como ha calor, a camisinha aberta Deixa entrever a pele fina e branca.
Cabelos loiros, presos sob o lenço, Saia roõaõa pelo calcanhar, Dou-lhe õez anos, quanõo muito, e penso Que uma avezinha lhe ensinou o anòar.
128 Poetisas Portuguesas
Oh ! que gentil, esbelta figurinha !
Uns olhos granões, côr õe agua marinha,
Sorriso alegre como o sol õe v'rão !
Deixá-la ir! Se lhe òizeis que é linòa,
Desfaz-se o encanto : peròe esse ar que a alinôa,
Pragueja e insulta como um carrejão.
Maria ôa Cunha. Trindades, pag. 43 e 44
O INFANTE DE SAGRES (quadro de malhôa)
No concavo õa rocha o Infante cisma, e crava Ao longe, no horisonte, o olhar perscrutador ; O largo oceano em volta amansa a fúria brava, Como um leão õomaòo aos pés õo õomaõor.
Embebe-se num sonho altivo e refulgente : Surge õo Mar òa Noite o Atlântico õa luz, . -. As quinas tremulanõo ao vivo sol Õo Oriente. ■ Em terra õe infiéis a reõentora cruz .
Hão õe partir em breve ousaõas caravelas ; Ha Õe guiar seu leme, e enfunar- lhes as velas. Da sua funôa crença o sopro genial !. . ■
E' nisto que êle cisma, e nem sequer õuviõa Que a frota há-õe voltar . . A gente é ÕestemiÕa, Granões almas õe heróis, filhes õe Portugal !
Maria õa Cunha. Trindades, pag. 41 e 42.
Poetisas Portuguesas 129
MEIO DIA
O sol subiu. Agora é quasi a prumo : Hora Ôa sesta abençoaôa e santa ! Sai òos casais, prometedor, o fumo, Os gaôos õormem, a cigarra canta.
A' luz òo sol, a rosa brava Õeita Um cheiro forte que entontece a gente ; Nos milharais, a cotovia espreita, A arvéioa salta na agua transparente.
E no silencio que se fez, profundo, Ouvem-se as folhas cahir no chão, E o palpitar ôo insecto moribundo.
Dormita á sombra o lavrador aldeão. Em quanto o sol, progenitor do mundo, Aloira os trigos e amadura o pão.
Maria da Cunha. T7'indades, pag. 103 e 104.
VIRTUDES TEOLOGAIS
;; Eu creio em ti, Senhor, quando, ás tardes contemplo
;; O campanário tosco e simples de uma aldeia,
l E as casinhas em volta ao pequenino templo,
1 A' sombra da tua cruz, ó Mártyr da Judeia.
: Espero, espero em ti, quando a estrelinha de alva
} Vem espiando no céu o despertar dos ninhos;
f Astro núncio do dia, a quantos ela salva !
1 Olhar da madrugada, irmã da flor dos linhos !. . .
130 Poetisas Portuguesas
Mas, quanòo escuto rir um banòo òe crianças, Quanôo beijo na face um õ'êsses pequeninos, Fazem bem á minha alma os risos cristalinos ;
Da infância õescuiôosa avivam-se as lembranças, E eu amo-te, Senhor, que bás á orfanòaõe Esse Ôom Òe viver ôo passado — a Sauòaôe.
Maria òa Cunha. Trindades, pag. 79 e 80.
CLAUDIA
N'aquelle tempo, junto ao pórtico sagrabo Do rei magnificente e sábio, Salomão, Jesus anunciava ao povo beslumbraòo As glorias ba humilbaòe e o luar bo Perbão.
Falava bevagar . bizeres tão suaves Como o rumorejar ba verbe Galileia : Amava a canbibez bos lírios e bas aves, Ensinava a sua alma á velha raça hebreia.
O' boce «Dôa-Nova> ! Em quanto Ele pregava E o sol batia em. cheio os cebros bo Hebron, No alto ba torre Antónia, imóvel, cogitava
Cláubia, mulher be Pôncio, a romana bevassa ! Turbara-a estranhamente o rabi casto e bom, Que a chamava, talvez á luz ba sua graça !
Maria ba Cunha. Trindades, pag. 34 e 35.
foetisQs Portuguesas 131
SOROR DOLORES
(d. MARIA FELICIDADE DO COUTO BROWN)
D, Maria Feliciòaõe òo Couto Drown que usou os pseu- ?)onimos õe Soror Dolores e A coruja trovadora nasceu no Porto, em 10 òe ]aneiro Õe 1890.
Foi casada com o negociante Manoel õe Clamouse Brown.
Os seus primeiros versos foram publicaõos em eõição particular, (sem local õe impressão e õata), apenas õesti- naõa a brinòes.
Foram firmaõos com o pseuõonimo õe A coruja trova- dora. (Viõe Capitulo VI, pag. 163 õo livro õo senhor Alberto Pimentel — Os Amores de Camillo^.
Na época em que Soror Dolores versejava, ainõa era feio € notaõo senhoras õeõicarem-se á literatura.
A única Diversão elegante õo Porto antigo era nesse tempo, em que as õamas iam á missa embiocaõas na man- tilha õe lapim, o Jardim de S. Lazaro. A elle se refere numa poesia Soror Dolores.
Penso, ser ta. preconceito, que levava esta Poetisa a es- crever nas obras que oferecia :
Para não passar a outra mão.
Segunõo õiz D. António õa Costa, em 1850, esta Senhora iPUblicou um livro intitulaõo Soror Dolores.
Em 1854, eõitava um outro, ]'iraçóes da Madrugada (3.» íôição refunõiòa Õe suas poesias), que também não chegou » entrar no mercaõo.
A' SENHORA MARIETTA GRESTI
O rouxinol entre as flores, Gorgeanõo seus amores, Não tem voz mais argentina Nem respira mais ternura. Nem meloõia mais pura. Do que tu, Gresti õivina.
132 Poetisas Portuguesas
Uma aura perfumaôa, Lá ôo Oriente sopraôa, Onòe linõa faõa mora. CultivanÔo seus rosais, Não murmura meiga os ais Como a tua voz sonora.
Quanòo a harpa òe Sião, De sublime inspiração, Solemnes cantos vibrava, Mais que tu não commovia, Nem a compaixão movia, Nem o remorso acordava.
O aõeus que á pátria ôiz O proscripto, que infeliz Para sempre a vai ôeixar, E' um grito penetrante, Tem um echo, é semelhante Ao pungir òo teu cantar !
Deve assim no espaço ethéreo Ser um anjo õe mysterio Moòelanòo hymnos õ'amor ; Deve assim vibrar sonoro N'esse eterno, angusto coro, Quanõo louva o Creaòor.
E*s o génio ôa harmonia, Que puòeste, por magia, Essa voz ao ceu roubar ; A mulher não poõe tanto ; Não tem o conõão ò'encanto De toõos arrebatar !
Soror Dolores. Âlmanach de Lembranças Luso Brasileiro para 1856, pag. 242.
Poethas Portuguesas 133
D. EMÍLIA EDUARDA
D. Emilia EõuarÒa nasceu em Lisboa em 1 òe Janeiro ôe 1845.
Representou, pela primeira vez, no Theatro Therpsicore, na rua ôa Conceição, á Praça õas Flores, onôe no õizer òe Sousa Bastos, agraòou extraorõinariamente nas três co- nieòias õe papeis muito òiferentes que teve a seu cargo. nessa noite.
Depois òe enviuvar, entrou para o Theatro Òo Gymnasio. Ahi fez a sua estreia, representando a comeòia em um acto
A esposa deve acompanhar seu marido^ traòução òe ]ulio César Machaòo, peça em que também alcançou veròaòeiro sucesso. (Viòe Carteira do Artista, por Sousa Bastos).
Como actriz, fez Emilia Eòuaròa, que era inteligentíssima, parte òas companhias organisaòas pelas emprezas ]osé Ricaròo, Taveira, Rente, e Garraio.
Em 1895, pertencenòo á Companhia Taveira, foi ao Rio òe Janeiro, onòe alcançou sucesso.
Em Lisboa, trabalhou nos teatros õo Gymnasio, Varie- òaòes e Príncipe Real.
Em 1898, fazia parte òo elenco òa companhia òo Theatro I Carlos Alberto òo Porto, ciòaòe onÒe viveu muito tempo. I A primeira poesia que o actor António Peòro recitou foi I feita por D. Emilia Eòuaròa.
No Almanach dos Palcos e Salas, òe que é proprietário o sr. Arnalòo Boròallo que teve a amabiliòaòe òe me pres- tar alguns esclarecimentos sobre assumptos theatraes, es- creveu D. Emilia Eòuaròa alguns contos e poesias.
Em 1895, publicou esta Senhora, no Porto, um livro inti- ulaòo Contos Simples, que D. João òa Camará prefaciou.
N'UM ÁLBUM
Um formoso bouquet òe flores mimosas — Lirios òo vai e pétalas òe rosas — Eu venho aqui òepôr.
134 Poetisas Portuguesas
Fui roubal-as, ó õoce primavera, Ao teu casto seio, onôe Flora gera O seu primeiro amor !
;■ Inibria o perfume que rescenôe
— A flor õo campo, que 5e côr esplenôe,
Delicaba e gentil ; Os jasmins brancos a pura neve Graciosos penòem a haste branõa e leve
A sauòarem abril.
E sobre a flor òe fina transparência
— Flor etherea, sacrário 0'innocencia
Que até o sol ôescora, — VinÔa òo céu, tremente e crystalina, Vi cair uma pérola õivina
Do áureo manto ôe aurora.
Emilia Eõuaròa. Almanach dos Palcos e Salas, para 1895jj (7.0 anno), pag. 31.
D. JÚLIA EUGENIA SILVA DE PEREIRA LÚCIO ESCORCIO
D. Júlia Eugenia Silva õe Pereira Lúcio Escorcio nasci em Lisboa.
E' filha õe D. Maria òel Rosário Matilae Lazara Francisca ôa Silva Montãno Castãneôa y Domingues òe Pereira e õe Zacharias }osé Pereira.
Esta ilustre Poetisa que é casaõa com o importante in- õustrial sr. João Nicolau Lúcio Escorcio, publicou, em 1913, o seu primeiro livro — Suspiros, obra em prosa e verso, es- cripta em 4 línguas (português, hespanhol, francez e in- glez). Foi prefaciaõo pelo escriptor Aõriano Anthero.
Em 1917, publicou esta Senhora, um novo livro — O
Poetisas Portuguesas 135
Protector de Inglaterra, — õrama em 3 actos, õe Don José Maria ôe Ortiga Marejon, que aõaptou para português, em verso elexanòrino.
Alem Òesta peça que foi entregue, no Theatro Nacional, para ser representada, D. Júlia Eugenia Silva õe Pereira Lúcio Escorcio traòuziu o õrama em 3 actos — Campo de Arminho, Õe D. Jacinto Benavente, original, que õeve ser representaõo no Theatro Republica.
Esta Escriptora tem colaboraõo na Illustração ^Portugue- sa, Heraldo da Madeira, Jornal da Madeira e no Jon aí da Mulher.
O NOSSO AMOR
Não sei como este amor teve começo, Nem qual Õe nós, primeiro o inspirou. Tu ou eu ? eis o segreõo. . . e õesconheço. Qual õe nós õois, primeiro o outro amou.
Por mais longe que eu olhe no passaõo Vejo-te sempre preso á minha viõa. Tu foste õesõe sempre o meu cuiõaõo, E õesõe sempre foste a minha liõa.
Olhaste-me e eu olhei-te e foi bastante. Não precisa õe mais o coração. Para saber que fica n'um instante, A* mercê õ'essa eterna conõição.
Lembro-me só que n'um brilhante outomno, Sereno e calmo como os há por cá, Eu comecei a ter noites sem somno, E õias sem cantar. . . amava já !
Júlia Eugenia Silva õe Pereira. Suspiros, Lisboa, 1913, pag. 12.
136 Poetisas Portaauesas
A UM CRUCIFIXO
Foi olhanòo-te um õia, absorta e triste, O' òoce imagem, minha companheira. Que eu me volvi á crença veròaòeira, Aquella em que na infância tu me viste.
Chorava ao contemplar-te. . tu sorriste, Ao veres-me tornar á fé primeira ; E ao teu sorriso, a alma toôa inteira. Ficará presa, emquanto ella existe.
No teu olhar Òe amor e òe peròão, ]esus ! eu vi a minha reõempção, Qual uma estrella, a rebrilhar nos céus !
Mentiu, Petrarcha ! o teu saber profundo. Não só a Dor — existe n'este munõo. Existe a Fé ! a òoce Esperança . e Deus !
Júlia Eugenia Silva Òe Pereira. Suspifos, pag. 58,
PECCADORA
Oh ! n'ini)uUei Jamais, one fomme qui tombe ;
Qui liait Bou* quel fardeau, la pauvre âms succombe !
Quanòo te vi, mulher, peròiòa, rastejanòo, De anòrajos vis, teu corpo esqualiõo coberto ; Os cabellos ao vento e sujos, òescompostos, Cavaòa a face, o olhar amorteciòo e incerto.
Quanòo te vi, chegaòa ao extremo òa miséria, Sem pão, sem honra, enferma e rota e sem abrigo, Lembrei-me que ]esus, remiu a Magòalena • Dastava-te a òesgraça e a òôr, por teu castigo!
Júlia Eugenia Silva òe Pereira. Suspwos, pag. 92.
Poetisas Portuguesas 137
D. IZABEL FERREIRA
D. Izabel Ferreira nasceu em Lisboa. E' filha òe D. Emí- lia Maria Pereira (Dama Drazileira), e òe António Bernar- ôino Ferreira.
Desôe criança, revela esta Senhora granòe inclinação pelo estuõo õas letras e musica.
Os seus versos anòam Òispersos por vários jornaes e almanachs.
No Mundo Elegante, publicou osta Poetisa alguns con- tos em prosa.
MÃE
Ter mãe, é ter carinho, é ter amor maõrugaõa Õ'abril, sorriso e flor ; aòormecer nas pétalas õ'um sonho, para acoròar n'um existir risonho.
Ter mãe, é ter arrimo e protecção Um estro que nos guia — aòoração ; — é receber n'um beijo seu a esp'rança, aureola òivinal, luz õe bonança !
Não ter mãe, é viver na escuriòão ! A noite õe invernia, a soliõão ! é o ruõe calvário õe uma cruz, sem um sorriso, um raio Ôe luz !
Não ter mãe, assistir-lhe á agonia, é uma cruòelissima elegia. . . é morrer òe tortura e ôe afflicção, sentinõo esphacelar-se o coração !
Izabel Ferreira. Almanach das Sí-nhoras, 1906, pag. 339
138 Poetisas Portuguesas
O PODREZITO
]esus ao encontrar meigo, sorrinôo, um pequenito nu, esfarrapado, interrogou n'um õoce tom magoado : não sentes filho, o frio qu'está cahihõo ? !
A creancinha erguendo a fronte loira, olhar cheio õe azul, e crença e luz, madrugada serena, encantadora, respondeu a sorrir ao bom Jesus :
— Não canta o passarito, o bosque, a flor ? a planta, a luz, o dia que se esvae ! também tu canto e rio, ó bom senhor, sou feli^, tenho mãe e lenho pae !
Izabel Ferreira. Almanach das Senhoras, 1901, pag. 255^
D. LUIZA FERREIRA
D. Luiza Ferreira é filha de D. Emiiia Maria Pereira f Ôe António Bernardino Ferreira. |
Irmã da Poetisa D. Izabel Ferreira, as suas produçõe^ que também são mimosas, teem sido publicadas em vario^ jornaes e, em especial, no Almanach das Senhoras, onôe assiduamente tem colaborado. >
19 D'AGOSTO -^
A primavera é como a mocidade, Manhã cheia de sol, toda florida ; Depois o outono vem .. tarde da vida! E da manhã gentil, resta a saudade !
Luiza Ferreira. A'manach das Senhoras, para 1909, pag. 230.
Poetisas Portuguesas 139
»
3 DE MARÇO
O ôeslisar ô'esta viòa não é, não, feito ôe rosas, cnõe vão poisar subtis as borboletas formosas.
E' um caminho ô'agruras, toôo gemiòos e Ôores, Onòe òesmaiam esp'ranças, onDe vão morrer as flores .
Ha mais espinhos que aromas, mais tristezas que alegrias sauõaões que choram R'alma, as mais cruéis agonias !
Luiza Ferreira. Almanach de Lembranças, Ôe 1904, pag. 199,
í A CREANÇA E A VELHINHA
\
l No meu cantar ôe creança
\ Não ha sombras ôe amargura !
ÍEu chego, e trago a esperança Da mais risonha ventura. í_
£ — E eu que parto ôentro em breve,
i Levo comigo a sauôaôe
f Dos sonhos ôa mociôaôe,
i Que o tempo ôesfez em neve !
Luiza Ferreira. Almanach das Senhoras, 1907, pag. 210.
140
Poetisas Portuguesas
D. MARIA IZABEL GAMITO
D. Maria Izabel Gamito nasceu na Ilha ôa Maòeira. filha õe D. ]ulia Gamito (já faleciòa), e õe Salvaòor Gamito.i
Aos onze anos õe iôaôe, numa inspiração simples ôeí criança, compunha esta Senhora os seu primeiros versos.!
As suas poesias, que não se encontram ainôa reuniõas em volume, teem siôo publicaõas no Diário de Noticias, òi, Maòeira ; Noticias d' Évora , 'Diarin dos Açores ; O Conini' bricense ; Primeiro de Janeiro^ òo Porto ; Diário Illustrado ; Correio da Noite ; Echos d' Avenida ; Mala da Europa ; A^ Chronica, 5e Lisboa ; e La Temporada, ôe Maôriõ. D. {sa<| bel Gamito que é uma ôelicaòa poetisa, colaborou tamber em vários almanachs, entre os quaes citarei o Almanach dai^ Senhoras.
PALAVRA SANTA
Esp'rança é canto õos astros Que ouvimos p'la viòa fora, E' palavra que sorri A' nossa alma que chora,
O veu branco onòe se prenõem Toõos os sonhos òa gente Esp'rança é o õivino anceio D'aquelle que vive e sente.
Palpitam risos vermelhos. Fogem tristezas ao vento Esp'rança é átomo ò'oiro Cahinôo no Soffrimento !
■fe-
Maria Izabel Gamito. Lisboa, 1915.
Pnetisas Portuguesas 141
INVERNO
Cáe neve. Canta o vento nos caminhos A gelaõa canção õa Invernia ; A folhagem õespeôe-se õas arvores N'um convulsivo choro òe agonia.
Cáe neve e chuva. Esforcem-se os açuões No espumante arquejar õas suas aguas ; Flores e aves abraçam-se morrenòo No sombrio estortôr õas granões Maguas !
Cáe neve. Canta o lume na lareira A õoiraòa canção õas suas brazas. Ha rocas õ'onÕe o linho se õesprenõe N'um alegre agitar õe brancas azas. . .
E a avó, que tem as neves õa velhice, Conta ás netas — sua viõa e seu calor Aquella historia já contaôa e linõa D'uma Princeza que morreu õ'amôr .
Maria Izabel Gamito. Lisboa, 1912.
VELHOS .
Ser novo, sim é ser a Luz e a Viõa, E' ter rosas na alma õeslumbraõa, E' ser feliz ! Que a õôr é para os novos, Lagrima que não chega a ser choraõa.
Risos õe sol, bemõito meio õia Que Deus nos pôz nas almas a sorrir ; Ser novo é ser a synthese Õa Viõa, Razão õo Amor e razão õo Existir !
142 Poethas Portuguesas
Ser velho é ter sauõaões ôe si mesmo De rastos nas escarpas òa Ancieòaòe. — Os velhos são menòigos ôo Passaòo I A menõigar o pão õa Mociòaòe! —
Maria Izabel Gamito. Lisboa, 1914.
GIESTA
(d. branca da sílveira e silva)
D. Branca òa Silveira e Silva que usa o pseudónimo Giesta, nasceu em Lisboa.
E' filha òe D Maria Henriqueta òa Silveira e ôo general António Maria òa Silva.
Em 1911 e 1912, foram publicaôas no Diário Illustrado e nas Novidades, as suas primeiras poesias ainòa com um ; certo cunho òe infantiliôaõe. |
Em 1913, iniciou-se no Jornal O Dia, um interessantissimol torneio poético travaòo entre Giesta e Abê (pseuòonimo - então usaòo por um òos nossos mais mimosos poetas — D. Alberto Bramão), òebate que pela suspensão òo jornal referiòo, foi continuado no Diário de Noticias.
Entre os òois campeões, que tiveram a rara fortuna òe constatar que nenhum fora venciôo, trocaram-se 25 sonetos acompanhados òe alguma prosa.
Este original torneio foi encerraòo com uma oòe òe Abê publicada no n." 11. de Outubro de 1914, da revista Vida Mundana, de que foi redactor e proprietário Luiz Trigueiros.
Em 4 de Março de 1915, foi levado á scena no Theatro, do Gymnasio, a peça em um acto, em verso. Amor de Ma-- rinheiro, original desta ilustre Poetisa e que obteve da im- prensa justificados aplausos.
Poetisas Portuguesas 143
A um òos nossos primeiros theatros foi entregue uma ova peça òesta Senhora, em 3 actos, e em alexandrinos, -v,
- Sangue A^ul, — género regional. " ' Em preparação tem D. Branca ôa Silveira e Silva, entre
utros trabalhos, uma peça histórica. Frei Gtl de Santarém, juaimente escripta em alexandrinos. Esta òistincta Es- riptora e Poetisa tem colaborado no Diário de Noticias, xhos da Avenida, Dia e Nação onõe publicou um artigo ititulaõo : A' memoria da Rainha Senhora D. Maria Pia.
SAUDADE
(inédito)
auòaôe !. . . Quanta vez o teu nome sagrado,
- sem nome, que traduz a mais lenta tortura —
;m ser comprehendido é por nós murmurado, ^
pmo inconscientemente a criança o murmura !. . .
'uantas vezes Saudade, és tu banalisada
;las almas que nunca ao teu pungir se abriram,
le em qualquer recordar te imaginam gravada,
;ie julgam conhecer-te e nunca te sentiram !. . .
L
íi)de viver em nós a suave lembrança
f alguém que nos deixou mas voltaria um dia;
saudade côr de rosa, ou verde como a esperança,
ce recordação que embala e acaricia.
Mas tu, a eterna dòr por um eterno ausente, liaudade fatal, a saudade que mata, firtirio que trucida a alma lentamente hm noites de vigília em prantos se desata,
"és triste como a cruz que vela um condemnado luz que em negro templo alumia um sacrário ; éroxa como a flor que recorda o teu fado € veste que Jesus levou para o Calvário.
144
Poetisas Portugansas
A verõaôeira és tu, SauÔaòe roxa e triste : não merece o teu nome a sauòaòe que espera SauÔaòe. . ., é a õor fatal que no peito onõe existe,
veste Ôe luto a viõa, a esmaga e dilacera. Sauòaõe, é isto, — só — : Mar imenso e profunõo aonôe a alma se afunda e morre para o Munòo.
Giesta. 1916.
DIA DE ANNOS
Annos são rosas que murcham, astros cadentes que correm ; annos são prantos que nascem, annos são risos que morrem.
São o despertar das horas que passamos a sonhar ; são illusões que nos fogem com saudades a voar.
São folhas secas, esparsas, porque os vendavaes as partem ; são corvos negros que chegam, são andorinhas que partem.
Annos são ondas revoltas CHie, depois de encapelar, se desfazem num rochedo para nunca mais voltar.
Giesta. Ahnanach das Senhoras^ de 1915, pag. 15.
Poetisas Portuguesas
145
ESTRELA DO NORTE
íiNEono)
(N'um álbum)
Ha tantas, tantas estrellas, pelo céu, a scintillar . ■ E no munõo, ha tantos olhos onôe poisa o nosso olhar. .
Caminheiro vagabunòo que, õe noite se peròeu, para encontrar o caminho, perscruta os astros ôo ceu
As almas tristes, errantes, que anôam no munõo sem par, nos olhos 0'alguem procuram a sua estrella polar. .
Mas quanto tempo se passa buscando o fanal òa sorte ? ! — Se ha tantos milhões õe estrellas, Mas — uma só — é õo Norte ! . .
l Giesta. 1914.
D. JÚLIA DE GUSMÃO
D. Júlia õe Gusmão, a inteligente, simpática e instruiôa 'í 2nhora ôe que neste momento se.occupa esta Antologia, f- isceu em Lisboa, a 21 ôe Outubro õe 1835. í Apesar õisso, a sua letra é õe tal maneira firme e o seu •« zer tão elegante e apropriaõo, que ninguém Õirá partirem l 10
146 Poetisas Portuguesas
esses escriptos òe quem já conta 81 anos ôe iòaòe, muitas vezes perturbaòos por granòes desgostos, como foi o b; perõa ôe sua queri^a mãe.
Foram seus pães D. Maria José ôe Mello e Joaquiir Victor Õa Silva Teixeira ôe Gusmão, 1." Oficial Ôo Ministe rio ôa Justiça.
Aos 10 ou 11 anos, começou D. Júlia ôe Gusmão a es crever linhas rimaôas, ôas quaes só tinham conhecimentc sua mãe e seu pae que se comprazia em emenôar-lhe o? erros Ôe metrificação.
Quanôo essas linhas começaram a merecer o nome ôt versos, alguns foram publicaôos em varias revistas, a pe ôiôo Ôe amigos ôe seu pae, que com ôesvanecimento, lhe havia mostraôo as proôuções poéticas ôe sua filha.
Passaôos anos, um ôia, encontrou-se esta Poetisa num sala com Thomaz Ribeiro, que tenôo-lhe ouviôo recita algumas' ôe suas poesias, peôiu licença para as publicai Apareceram na Revolução de Setembro, acompanhaôas ô' uma elogiosa carta Ôo auctor ôos Sons que Passam, ôirigiò a Matheus Ôe Magalhães, encarreganôo-o ôe apresentara poesias ôe D. Júlia ôe Gusmão no jornal ôe que ele er, então folhetinista.
Mais tarôe, em 1867, esta Senhora publicou um livro! versos — Flores Singelas — prefaciaôo por Pinheiro Cha gas, que a pag. 10, ôiz:
«Eu tenho a firme convicção ôe que este volume ha obter successo porque tem a granôe qualiôaôe que falt maior parte ôos livros ôe poesia contemporânea, é verôí Ôeiro, é espontâneo, é o ôesborôar ingénuo ôe uma aitn que não quer represar as suas sensações e que as ôeix ôesabrochar e fulgir ao sol ôa poesia, como as flores «n valhaôas pela aurora, e surprehenôiôas pelo astro explen ôiôo».
Em 1900, foi-lhe confiaôa a ôirecção ôo Q^lmanachéí
Poetisas Portuguesas 147
Senhoras onõe õeixou muitos escriptos seus, em prosa e verso.
Em 1911, por falta òe sauôe, õeixou esse cargo, que exerceu sempre com a maior meticulosiõaòe e õeõicação.
Entre muitos jornaes e revistas em que colaborou D, Júlia òe Gusmão, poõerei citar : Almanach das Senhoras e òe Lembranças, Diário de Noticias, Archivo Lisbonense, Boudoir, õMundo Elegante e Brapl e Portugal.
Nesta ultima revista, escreveu um artigo acerca õa morte ôa sua granõe amiga D. Amélia ]anny, o qual ôepois publi- cou em folheto.
Alem òoutras traõuções, fez a ôe Le Disparu ôe A. Dau- ôet.
ALÉM
Nos raios òo luar, no brilho òe uma estrella, no perfume subtil òo jasmineiro em flor, no branco ciciar òa brisa que á noitinha perpassa junto a mim n'um sopro acar'ciaòor,
Eu julgo presentir o frémito ò'uns lábios, um som meigo e sauõoso, um echo, a voz ò' Alguém que Deus chamou a si, que além, no ceu existe, sorrinòo para mim òo mysfrioso Além !
E a voz que eu julgo ouvir no lume Òas estrellas,
nos raios òo luar, na emanação òa flor,
no ciciar òa brisa, o som que me inebria,
eu creio • • vem òo Além fallar ò'um santo amor.
Além ,! ponto òe esp'rança ! irraòiação òivina ! orvalho matinal nas anciãs òe soffrer ! pharol a illuminar na senòa òa existência o pouco que me resta ainõa a percorrer I
]ulia òe Gusmão. Almanach das Senhoras, Lisboa, 1909, 39." anno), pag. 376.
148 Poetisas Portuguesas
N'UM JAZIGO
Ha sauôaôes õe sauòaôes, e são as mais lancinantes ! Quem me õera ter agora sauôaôes que eu tinha ô'antes !
Ajoelhaôa em teu jazigo, Oranôo, pensanôo em ti, eu sinto enorme sauôaôe ôe sauôaôes que soffri.
]ulia ôe Gusmão. Almanach das Senhoras, 1901, pag. 338.
IVALDA
(d. ALICE MONTEIRO LEITE)
D. Alice Monteiro Leite nasceu na ciôaôe ôo Porto.
E' filha ôe D. Emilia C. G. Monteiro e Ôe EôuarÕo F. Leite,
Seu avô António Luiz Monteiro, natural ôe Coimbra ser- viu como voluntário õa Rainha e foi um dos mil e qui- nhentos bravos que desembarcaram no Mindello e entraram no Porto com D. Peôro IV.
Pelos seus feitos militares, foi-lhe conferiôo pelo aluôiôo monarca, o grau ôe Cavalleiro da Torre e Espada, senôo a primeira pessoa agraciaôa com tal Ôistinção, na Invicta Ci- dade, onôe morreu (exercenôo o cargo ôe tabelião), e está sepultaôo.
Sobre o seu tumulo, ha as seguintes palavras que foram escriptas a seu peôiôo :
«Esta viôa Ôeixo contente: servi a minhaPatria, ameia minha gente».
Poetisas Portuguesas 149
Desõe criança, que D. Alice Monteiro Leite sente pro- pensão pelas letras.
Tenòo feito os seus primeiros estuõos nos melhores co- légios Õo Porto, não pouõe por falta òe sauõe matricular-se num curso superior, como era seu òesejo.
Por outro laõo, seu pae citava-lhe, sempre, o exemplo ôe escriptores morrerem õe fome, em Portugal, e que ver- bos só Junqueiros os beviam fazer.
Apesar Òe tão juôiciosos conselhos, Ivalda (tal é o pseu- dónimo que esta Senhora escolheu para firmar algumas òe suas poesias e escriptos em prosa, publicaòos em jornaes portugueses e brazileiros), não òesanimou em absoluto :
«Calaòa e òesconsolaòa, mais procurava então viver a sós comsigo mesma, estuòanòo as obras òo granòe poeta <Guerra Junqueiro), relenõo-as, òecoranòo-as, procuranòo òecifrar-lhe os mais Íntimos segreòos, as mais alaòas ins- pirações òo genio>.
Assim, òeu principio a um poema, que tem quasi con- cluiôo e que se intitula : A Terra.
Provanòo que Ivalda aproveitou com a leitura òo auctor òos Simples e òa Morte Òe D. João, òi-lo o seu trabalho literário a que me refiro.
Por ser granòe o trecho que òesse poema li, não posso, como queria, òar òele um specimen. Porém, nas poesias Semente pequenina e Quero sonhar..., os leitores encon- trarão certa compensação á falta que aponto.
A actual guerra, nas suas variaòissimas manifestações, em que o cumulo òa barbariõaòe, òo sofrimento e òa he- roiciòaòe a caòa passo se chocam, forneceu a esta ilustre Poetisa e Escriptora tema para uns curiosos e bem feitos artigos, que tem publicaòo com o pseuòonimo que usa, em vários números Òo Commercio do Porto.
150 Poetisas Portuguesas
SEMENTE PEQUENINA
Eu vi uma semente pequenina Que sonhou ser na fria escuriôão, A Flôr gentil — a Forma peregrina Da sua concepção.
Nasceu a folha. O Sonho òa semente Foi crescenôo como ella . . Então pensava Não era só a flôr somente, Aquillo a que aspirava . .
Mais tarôe a flôr, encerrando, esconòiôa. A pura essência õ'essa aspiração, Fez-se Perfume — foi, n'uma outra viôa, A luz ò'um sonho, a voz õ'um coração !
Ivalõa. Lisboa, 17 Òe Setembro Ôe 1915.
QUERO SONHAR. .
Quero sonhar um sonho tão suave
Como um beijo õe flôr : Sonho, em que o pensamento seja ave ;
Beijo, que seja amor !
As aves também sonham quanõo cantam
A' tarôe, ao pôr õo sol. . Ha trinados õ'amor, que nos encantam.
Na voz õo rouxinol !
E eu oiço dentro em mim também um canto
Que sempre me enamora ; Que me õiz o que ri e sente e chora
Sem eu ver riso ou pranto !
Poetisas Portuguesas 151
Que me conta os segreôos òos vallaòos,
Os segreôos ò'amor. • . Diz-me se a ave, voanòo sobre os praôos,
Inveja alguma f!ôr. . .
Se, ainòa rasteira e humilõe, a hera aspira
A erguer-se para os céus, E Õepois, ao mirar-se, se suspira
D'amor nos sonhos seus . . .
Se o lyrio ao ver a abelha ancioso.
Tonto òe meõo e ôôr, Venòo-a roubar-Ihe o néctar precioso
— Alma gentil õa flor !
Se tuòo que na terra existe e vive,
Do loôo á creatura Anceia, sonha, morre e, emfim, revive
Na própria sepultura. .
Diz-me os segreôos que a natura esconòe
E só quem soffre vê. • - Que palpitam na flor, na ave, e mesmo aonõe
Ninguém, ninguém os crê !
Quero sonhar a viõa que presinto
Em torno a mim, E quero ouvir o palpitar, que eu sinto.
Em tuôo, emfim !
A viôa tem encantos reservaôos
Que eu quero ter Com os meus olhos ô'alma, enamoraôos
De tanto vêr !
Ivalõa.
152 Poetisas Portuguesas
D. AMÉLIA JANNV
(a poetisa do MONDEGO)
D. Amélia Janny, era natural òe Coimbra, ciôaõe onõé^ faleceu a 19 Ôe março õe 1914, contanòo 73 anos õe iòaôe.
Desta Poetisa ôiz o senhor Pedro Eurico (Pinto Osório), no seu livro Figuras do Passado, Lisboa 1915, pag. 210:
«A senhora D. Amélia Janny provém ôe uma família que tem os mais ilustres pergaminhos literários, ôe que poõe orgulhar-se esta vila ! ' De uma família, em que os ôotes privilígiaôos õa intiligencia e õo talento foram património comum ôe toôos, cujos nomes aínôa anôam na memoria ôos vivos !»
«O Sábio D. Francisco ôe S. Luiz — Carôeal Saraiva; António Correia Calôeira, eloquente parlamentar e ôistin- tíssimo homem publico ; o poeta Luiz Correia Calôeira, têm os seus nomes inscriptos nas folhas ôe ouro ôa historia, ôa literatura e ôa politica ôo nosso paiz !>
«Frei Luiz Saraiva irmão ôo Carôeal, foi lambera homem muito inteligente e instruiôo !
E num artigo acerca ôa morte õe D. Amélia ]anny ôiz O Dia Ôe 8-7-1914:
«Ella fazia versos pelo menos, ha 58 annos, pois que aos 14 ôa sua eõaôe como poetisa fora apresentaôa a António Feliciano ôe Castilho em 1856, ficanôo ôesôe então consa- graôa, e senôo Xavier Corôeiro o paôrinho ôa apresenta- ção.>
«E foi uma poetisa de verdade, no sentiôo ôe se restrin- gir ao sentimento, pois que hoje mais ôo que nunca, se torna mister ôifferençar entre poetas ôe sentimento e poetas õe
1 PoQte de Lioia.
Poetisafi Portuguesas 153
arie ; e se aquelles vão passando, ô'estes muitos temos hoje, perfeitíssimos na forma, talentosos na concepção, que en- tusiasmam e recebem incensos õa critica, e mais ainõa õo noticiário, embora noticiário e critica por vezes sejam sus- peitas pelas camaraderies òas clientelas. >
D. Amélia Janny tomou parte no celebre sarau realisaõo no Teatro Académico, em maio ôe 1862, festa em que esti- veram alem òa Acaòemia, Castilho e Teófilo Braga, que re- citaram versos ; Guerra Junqueiro que pela primeira vez aparecia ante a Acaòemia, e que também recitou, e Anthero õo Quental que leu alguns õos seus versos, que òepois in- cluiu nas Odes Modernas.
Das Figuras do Passado (pag. 215), transcrevo o que Òisse Castilho, òe D. Amélia Janny, quanõo òessa festa, õaõo que o auctor ôesse livro extratou òa